Pompeia e Stabia (episódio 4): quando as termas encontraram o Vesúvio

Existem poucos lugares no mundo onde a história parece tão próxima quanto em Pompeia. Basta caminhar por suas ruas de pedra para perceber que aquela não é apenas uma cidade arqueológica. É uma fotografia congelada da vida romana. As casas continuam ali. As padarias continuam ali. Os afrescos, os jardins, os mercados, os templos. E, naturalmente, também as termas.

Muito antes de o Vesúvio entrar para a história com a erupção de 79 d.C., as águas quentes já faziam parte da rotina das cidades que prosperavam ao redor do golfo de Nápoles. Pompeia era uma delas.

Os romanos não enxergavam as termas como um luxo reservado a poucos. Elas eram parte da vida cotidiana. Homens de negócios, artesãos, comerciantes e cidadãos comuns passavam horas nesses espaços depois do trabalho. Ali se tomava banho, fazia-se exercício físico, conversava-se sobre política, fechavam-se negócios e acompanhavam-se as notícias da cidade.

Em Pompeia, os arqueólogos encontraram vários complexos termais espalhados pelo centro urbano. As Termas Stabianas, consideradas as mais antigas da cidade, funcionavam desde antes da chegada do Império Romano. Havia ainda as Termas do Fórum, localizadas próximo ao coração político da cidade, e as Termas Centrais, que estavam sendo ampliadas quando o Vesúvio entrou em erupção.

Hoje, ao visitar esses espaços, ainda é possível reconhecer piscinas, salas aquecidas, vestiários e sistemas de circulação de ar quente extremamente sofisticados para a época. A paixão romana pelas águas quentes não era apenas uma questão de higiene. Era também uma forma de bem-estar. Uma filosofia de vida. E foi justamente alguns quilômetros adiante, em Stabia, que essa relação entre conforto, paisagem e saúde atingiu seu ponto mais elevado.

A atual Castellammare di Stabia ocupa uma posição privilegiada entre o mar e as montanhas da península de Sorrento. Na Antiguidade, a região era conhecida por suas fontes minerais e por suas luxuosas villas construídas sobre as falésias com vista para o golfo.

Enquanto Pompeia era uma cidade dinâmica e comercial, Stabia era um refúgio. Ali, famílias aristocráticas buscavam tranquilidade, clima agradável e contato com as águas minerais que brotavam naturalmente da terra.

As escavações revelaram residências impressionantes, como a Villa San Marco e a Villa Arianna, decoradas com mosaicos, jardins internos e salões panorâmicos voltados para o mar. Não por acaso, muitos historiadores consideram Stabia uma espécie de antecessora dos modernos destinos de bem-estar e turismo de luxo.

Mas existe uma ironia geológica que atravessa toda essa história. O mesmo vulcão que destruiu Pompeia e Stabia foi também responsável pelas riquezas naturais que tornaram a região famosa. O Vesúvio alimentou durante séculos os aquíferos subterrâneos, os minerais e os fenômenos geotérmicos que deram origem a muitas das águas termais da Campânia. Destruição e regeneração passaram a conviver no mesmo território.

Séculos depois da tragédia romana, Castellammare di Stabia voltaria a ganhar destaque graças justamente às suas águas. Entre os séculos XIX e XX, as Terme di Stabia transformaram a cidade em um dos principais centros termais da Itália.

Médicos estudavam as propriedades das fontes minerais e visitantes chegavam de várias partes do país em busca de tratamentos respiratórios, digestivos e reumatológicos. A cidade viveu uma verdadeira era de ouro do turismo termal, recebendo aristocratas, intelectuais e famílias que viajavam para passar semanas inteiras entre banhos, caminhadas e tratamentos.

Hoje, a região continua atraindo visitantes por razões diferentes, mas igualmente fascinantes. De um lado estão as ruínas de Pompeia, um dos sítios arqueológicos mais visitados do planeta. Do outro, as villas de Stabia, muitas vezes menos conhecidas, mas capazes de revelar um retrato extraordinário do cotidiano da elite romana. Entre as duas cidades permanece o Vesúvio. Silencioso. Imponente.

Lembrando que, na Campânia, a história das termas nunca esteve separada da história da própria terra. Aqui, o calor que sobe do subsolo ajudou a construir impérios, cidades, tradições e uma cultura do bem-estar que atravessa mais de dois mil anos.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *