Calor extremo já custa até 12 bilhões à Itália e muda hábitos de consumo e turismo

As ondas de calor deixaram de ser apenas um desafio para a saúde pública e passaram a representar um dos principais problemas econômicos da Itália. Com verões cada vez mais longos e temperaturas frequentemente acima dos 35 °C, o país começa a pagar uma conta bilionária que afeta empresas, trabalhadores, consumidores e até a forma como os italianos viajam e frequentam as cidades.

Segundo uma análise publicada pelo Il Sole 24 Ore, com base em estimativas da associação empresarial Confesercenti, o impacto econômico do calor extremo pode variar entre 6 e 12 bilhões de euros por ano, o equivalente a até 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) italiano.

A entidade define o fenômeno como uma verdadeira “taxa climática”, um custo permanente que já influencia investimentos, produtividade, consumo e o funcionamento de diversos setores da economia.

Grande parte dessa conta vem dos investimentos que empresas e famílias passaram a considerar inevitáveis. Sistemas de ar-condicionado mais eficientes, instalação de painéis solares, melhorias no isolamento térmico de edifícios e adaptações para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas representam, sozinhos, um gasto estimado entre 2 e 4 bilhões de euros.

Também cresce a despesa com energia elétrica. Manter casas, escritórios, lojas e restaurantes refrigerados durante períodos mais longos do verão acrescenta outros 2 a 3 bilhões de euros em custos anuais. Ao mesmo tempo, o calor reduz a produtividade dos trabalhadores, especialmente em atividades realizadas ao ar livre, como construção civil, agricultura, logística e manutenção, onde o desempenho físico diminui significativamente durante os dias mais quentes.

Os reflexos aparecem também no comércio e no turismo. Nas horas de maior calor, as ruas ficam mais vazias e consumidores tendem a permanecer em ambientes climatizados, favorecendo shopping centers e compras pela internet. Pequenos comércios de rua, mercados e estabelecimentos localizados nos centros históricos acabam perdendo movimento justamente durante o período tradicionalmente mais forte do verão.

Nem mesmo bares e restaurantes escapam dessa mudança de comportamento. De acordo com a Confesercenti, o calor intenso pode reduzir a utilização das áreas externas — muito populares na Itália durante os meses de verão — diminuindo a capacidade de atendimento de muitos estabelecimentos.

O turismo também começa a mudar de calendário. Em vez de viajar em julho e agosto, muitos italianos estão antecipando ou adiando as férias para junho e setembro, quando as temperaturas costumam ser mais amenas. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por destinos de montanha, enquanto cidades históricas e de arte enfrentam maior dificuldade para atrair visitantes durante os períodos de calor extremo.

O impacto chega ainda ao orçamento das famílias. Hoje, uma residência italiana gasta, em média, cerca de 150 euros por ano apenas com a climatização durante o verão, valor que, segundo as projeções da entidade, pode alcançar 400 euros nos próximos anos. A isso se somam despesas com compra e substituição de aparelhos de ar-condicionado, maior consumo de água e até gastos médicos relacionados ao estresse térmico.

Para a Confesercenti, o cenário mostra que as mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma questão ambiental e passaram a exigir respostas estruturais. A entidade defende investimentos em requalificação energética dos edifícios, adaptação das cidades e maior resiliência da infraestrutura urbana para evitar que o calor continue comprometendo a competitividade da economia italiana.

Mais do que uma sucessão de verões cada vez mais quentes, o fenômeno começa a transformar a rotina, o consumo e até a forma como os italianos vivem, trabalham e aproveitam a estação mais movimentada do ano.
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