Salários na Itália estão praticamente parados há quase meio século, diz estudo

A pesquisa analisou a evolução dos salários reais — ou seja, já descontada a inflação — dos trabalhadores do setor privado entre 1975 e 2024. O resultado revela uma mudança de trajetória a partir do fim dos anos 1970.
Entre 1976 e 1979, os salários reais cresciam, em média, cerca de 3% ao ano. A partir da década de 1980, porém, esse ritmo começou a desacelerar até praticamente desaparecer nos anos 1990. Desde então, os ganhos salariais permaneceram próximos de zero e, entre 2020 e 2024, registraram queda média de 0,6%, influenciados principalmente pelo forte aumento da inflação em 2022 e 2023.
Segundo os pesquisadores, essa evolução não pode ser explicada apenas pelos ciclos econômicos. Um dos principais fatores é a baixa produtividade da economia italiana, que há décadas cresce muito lentamente. Em geral, salários mais altos dependem de empresas mais produtivas, capazes de gerar maior valor agregado. Como isso não aconteceu de forma consistente, a remuneração dos trabalhadores também ficou estagnada.
O estudo identifica ainda uma transformação no perfil das empresas. Nas últimas décadas, muitos dos novos negócios surgiram em setores de baixa tecnologia e reduzido valor agregado, especialmente na área de serviços. Essas empresas tendem a oferecer salários menores e possuem menor capacidade de financiar aumentos salariais ao longo do tempo.
Outro elemento importante é a mudança no mercado de trabalho ocorrida a partir dos anos 1990. A expansão dos contratos temporários e de outras formas de trabalho mais flexíveis atingiu principalmente os jovens que ingressavam no mercado. Embora as novas gerações tenham, em média, um nível de escolaridade superior ao das anteriores, elas passaram a enfrentar carreiras mais instáveis, maior rotatividade e menor poder de negociação para transformar qualificação em melhores salários.
Os autores também destacam que a mobilidade entre empresas continua limitada. Na prática, poucos trabalhadores conseguem migrar para empregadores que pagam salários mais elevados, enquanto empresas menos produtivas permanecem ativas sem que sejam substituídas por negócios mais eficientes.
O estudo ajuda a explicar por que a questão salarial se tornou um dos principais desafios da economia italiana. Nos últimos meses, organizações internacionais como a OCDE já haviam alertado que o país continua entre as grandes economias com pior desempenho na recuperação dos salários reais após a inflação. A conclusão do levantamento do INPS é clara: a estagnação dos salários não nasceu com a crise recente, mas representa um problema estrutural que acompanha a Itália há várias décadas e cuja solução depende de avanços em produtividade, inovação, qualidade do emprego e crescimento econômico.
