Os Salários ainda não se recuperaram na Itália: país tem pior resultado entre as grandes economias

O mercado de trabalho italiano vive um paradoxo. Nunca houve tantas pessoas empregadas como hoje e o desemprego está próximo dos menores níveis da história recente. Ainda assim, para milhões de trabalhadores, o poder de compra continua menor do que antes da explosão inflacionária iniciada em 2021. Segundo dados divulgados pela OCDE e repercutidos pelo jornal La Repubblica, a Itália registra atualmente a pior recuperação dos salários reais entre as principais economias desenvolvidas.
O dado mais preocupante mostra que, no início de 2026, os salários reais dos trabalhadores italianos ainda estavam 6,1% abaixo do nível registrado em 2021. Em outras palavras, mesmo que os salários nominais tenham aumentado nos últimos anos, eles não conseguiram acompanhar a alta do custo de vida, fazendo com que o dinheiro rendesse menos no fim do mês.
A OCDE também prevê que a recuperação continuará lenta. Em 2026, os salários reais italianos devem registrar nova queda de cerca de 0,9%, enquanto para 2027 a expectativa é de uma alta praticamente simbólica, insuficiente para compensar as perdas acumuladas desde a pandemia e da crise energética provocada pela guerra na Ucrânia.
O cenário chama atenção porque ocorre justamente em um momento positivo para o emprego. A taxa de desemprego italiana está entre as menores das últimas décadas, e o número de pessoas ocupadas atingiu um recorde histórico.
Mesmo assim, a participação da população no mercado de trabalho continua baixa em comparação internacional: o país ainda apresenta uma taxa de ocupação cerca de nove pontos percentuais inferior à média dos países da OCDE, reflexo de problemas estruturais como o envelhecimento demográfico, a baixa participação feminina e as fortes diferenças econômicas entre o norte e o sul do país.
Economistas apontam que parte dessa dificuldade está relacionada ao modelo italiano de negociação salarial. Muitos contratos coletivos demoram anos para ser renovados, fazendo com que os reajustes cheguem quando a inflação já corroeu boa parte da renda das famílias. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos de energia e das matérias-primas reduziu a capacidade de muitas empresas de conceder aumentos mais expressivos.
Apesar desse quadro, a economia italiana continua demonstrando resiliência. O emprego segue crescendo, o turismo vive uma fase de forte expansão e setores como indústria, tecnologia, construção e energia continuam atraindo investimentos. O desafio, agora, é transformar esse dinamismo em ganhos concretos para os trabalhadores.
Para quem observa a Itália do exterior, os números ajudam a desfazer um equívoco comum: um mercado de trabalho aquecido nem sempre significa aumento do bem-estar. A experiência italiana mostra que criar empregos é apenas parte da equação. Garantir que os salários acompanhem o custo de vida tornou-se uma das principais questões econômicas e sociais do país nos próximos anos.
