Caros leitores, chegamos ao sétimo capítulo da minha coluna dedicada à viagem de retorno à minha terra natal, a Toscana, e à minha cidade, Florença.
Nos últimos anos, a Prefeitura de Florença, juntamente com sua administração, vem tentando trazer os florentinos de volta ao centro histórico. Muitas iniciativas, porém, fracassaram: desde a abertura da ZTL (Zona de Tráfego Limitado) aos domingos, passando pelo transporte público gratuito durante a noite para os jovens, até a realização de eventos culturais. Na minha opinião, foram tentativas pouco eficazes e, como demonstram os números, incapazes de alcançar os resultados esperados.
Durante os dois meses em que permaneci na cidade, vi apenas uma piora no meu amado centro histórico. Como contei anteriormente, cada vez mais lojas tradicionais fecharam as portas e os comércios históricos enfrentam enormes dificuldades. O público local praticamente desapareceu. Hoje, o centro é dominado pelos turistas, principalmente americanos e asiáticos.
Na Via Faenza, uma rua que percorri diariamente, contei nada menos que oito lojas de souvenirs e minimercados. Além de comprometerem a estética da rua, esses estabelecimentos mostram claramente como a cidade mudou. Lanchonetes e sorveterias exibem placas em inglês e fotografias de enormes casquinhas de sorvete e sanduíches gigantes. E então surge uma pergunta inevitável: por que os florentinos deveriam voltar ao centro? Para fazer o quê? Tudo ficou caro e, muitas vezes, de qualidade inferior ao que existia no passado.
Essa degradação sociológica e urbana acabou favorecendo, paradoxalmente, o renascimento das periferias que, como também contei anteriormente, vivem uma nova fase graças ao fortalecimento dos chamados bairros populares.
Mas quais seriam os pontos capazes de devolver a vitalidade ao centro histórico?
Na minha opinião, as soluções são simples e perfeitamente viáveis.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o centro histórico de Florença foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO. Justamente por isso, a prefeitura deveria restringir ainda mais a concessão de licenças para estabelecimentos voltados exclusivamente à venda de bebidas, minimercados e atividades semelhantes. Ao término dos contratos de locação dos imóveis comerciais, não deveria mais ser permitida a abertura desse tipo de negócio.
A Prefeitura de Florença parece ter me ouvido, ao menos simbolicamente, pois recentemente aprovou uma norma justamente nessa direção. Foram suspensas novas licenças para restaurantes, minimercados e estabelecimentos de kebab.
Como segunda medida, foi introduzida uma legislação destinada a limitar os imóveis utilizados para aluguel de curta duração, como os anunciados no Airbnb. Com essa nova regulamentação, a Prefeitura de Florença pretende reduzir significativamente o número de imóveis destinados a esse tipo de locação. As residências deverão respeitar requisitos mínimos de metragem e de número de cômodos. Caso essas exigências não sejam cumpridas, será possível identificar, por meio do cadastro imobiliário, os imóveis que não estiverem em conformidade com a legislação.
Mas quais serão os benefícios?
Simplesmente os apartamentos voltarão a ser alugados para estudantes e famílias por meio de contratos de longa duração. Dessa forma, os bairros centrais voltarão a ser habitados por pessoas que vivem a cidade no dia a dia, e não apenas por turistas de passagem.
Outro episódio me chamou muito a atenção e me fez perceber o quanto a minha Florença mudou. Tive o prazer de visitar a casa do meu amigo Simone, localizada na Via de’ Servi, em pleno centro histórico. O apartamento possui um terraço na cobertura e subimos para tirar algumas fotografias com a Catedral de Santa Maria del Fiore ao fundo. Para minha surpresa, ao olhar ao redor, percebi que haviam surgido, como cogumelos, inúmeros rooftops: terraços transformados em espaços comerciais, com pessoas tomando sol, fazendo festas e aproveitando o dia.
Isso demonstra o quanto Florença se tornou uma cidade cada vez mais comercial. Procura-se alugar qualquer espaço disponível, até mesmo um pequeno pedaço de terraço.
Enquanto regava suas plantas, uma senhora que mora ao lado da casa do meu amigo olhou para nós e disse, em perfeito dialeto florentino:
“Como mudou a minha Florença… antigamente era tão bom viver aqui.”
Hoje, pelas ruas do centro, é cada vez mais comum encontrar placas de imobiliárias anunciando a venda de imóveis voltadas especificamente para clientes americanos.
À noite já não vejo mais grupos de jovens florentinos passeando pelo centro como acontecia antigamente. Praticamente todas as casas noturnas fecharam. E, na minha opinião, isso também contribuiu para o aumento do mal-estar entre os jovens.
Na minha época existiam muitos espaços de convivência. O centro de Florença contava com mais de dez cinemas. Hoje, praticamente todos desapareceram, substituídos por livrarias no estilo Starbucks e restaurantes. Existiam inúmeros clubes noturnos, casas de jazz e espaços culturais que simplesmente deixaram de existir.
Atrás do antigo Cinema Gambrinus, onde hoje funciona o Hard Rock Cafe Firenze, havia uma belíssima sala de bilhar. Os idosos ensinavam nós, jovens, a jogar, e aquele espaço representava um pequeno círculo cultural, além de um importante ponto de encontro entre diferentes gerações.
As administrações municipais do passado, ao priorizarem quase exclusivamente a retirada dos automóveis do centro histórico, acabaram obtendo exatamente o efeito contrário. Os florentinos permaneceram nas periferias e o centro histórico, que antes era o coração pulsante da vida cotidiana da cidade, tornou-se o símbolo do overtourism e de um comércio voltado quase exclusivamente aos turistas.
O esvaziamento da vida social da cidade contribuiu para a degradação urbana, agravada também pelo forte aumento da imigração. A região da estação ferroviária de Santa Maria Novella transformou-se, infelizmente, em uma área marcada por furtos, batedores de carteira e tráfico de drogas.
Florença, que durante muitos anos foi considerada uma das cidades mais seguras e tranquilas da Itália, passou a ocupar a terceira posição no ranking de denúncias criminais em relação ao número de habitantes. A sensação de insegurança entre os cidadãos tornou-se elevada.
E aqui encontramos outro grande paradoxo.
Uma cidade entre as mais caras da Itália não consegue oferecer aos seus cidadãos serviços realmente eficientes nem garantir um nível adequado de segurança.
“Já não é mais uma cidade, mas um hotel espalhado.”
Essa talvez seja a frase que melhor representa Florença nos dias de hoje.
São muitos os movimentos e comitês que surgiram para tentar combater essa transformação da cidade. Entre eles está o Comitato Salviamo Firenze, que há anos luta para devolver Florença aos florentinos, defendendo leis mais rígidas para limitar os aluguéis de curta duração, incentivar o retorno das lojas tradicionais ao centro histórico e recuperar a verdadeira vida social da cidade.
Até a próxima.

