Douglas Cirinei Nunes, 34 anos, brasileiro e responsável pelo setor de recursos humanos de uma empresa no Rio de Janeiro, está empenhado em reconstruir a história de sua família e reencontrar suas origens italianas.
A pesquisa o levou aos arquivos, aos registros imobiliários, às plataformas de genealogia e, principalmente, às redes sociais. Do Rio de Janeiro, Douglas está investigando a história de seus antepassados ligados a Arcevia, cidade da província de Ancona, na região das Marcas.
O objetivo é claro: reencontrar a casa de seus antepassados em Palazzo di Arcevia.
O momento também já está definido. Douglas planeja viajar para a Itália em novembro e quer chegar ao país preparado, com informações precisas sobre os lugares para visitar, os familiares que poderá encontrar e os caminhos percorridos por sua família antes de emigrar para o Brasil.
Seus antepassados chegaram ao Brasil em 1897, a bordo do navio Minas.
A memória dessa história foi preservada sobretudo por Elisa Cirinei, sua bisavó e, para Douglas, uma verdadeira guardiã da memória familiar. Elisa emigrou para o Brasil em 1897, junto com Giuseppe Cirinei, trisavô de Douglas.
“Quando nasci, minha avó já havia falecido”, conta Douglas, emocionado.
Seus pais trabalhavam durante todo o dia e, por isso, ele passava muito tempo com a bisavó Elisa. Foi por meio dela que conheceu as histórias da família e começou a construir o vínculo com a Itália.
“Infelizmente, minha bisavó faleceu quando eu tinha 10 anos. Eu era muito ligado a ela. Eu nem sequer tinha uma foto junto com ela: muitas imagens foram perdidas por causa das fortes infiltrações de água que havia na casa aqui no Rio de Janeiro. Graças à inteligência artificial, consegui criar do zero uma foto nossa juntos.”
A presença das Marcas e das tradições italianas também permaneceu nos pequenos rituais familiares, especialmente à mesa.
“Almoço de domingo? Lasanha e, como sobremesa, cannoli”, conta Douglas.
E há ainda a lembrança do vinho, associada à própria infância.
“O vinho era fundamental à mesa. Lembro que minha bisavó, mesmo eu sendo pequeno, me fazia experimentar vinho: ela preparava uma pequena mistura, duas medidas de vinho diluídas em água e açúcar, um remédio contra todos os males”, conta, rindo.
A busca pelas origens ganhou novos caminhos com o uso de programas de reconstrução de árvores genealógicas, como o FamilySearch. A partir deles, Douglas conseguiu avançar na investigação e chegar até Palazzo di Arcevia, na região das Marcas.
Os documentos também ajudaram a esclarecer um mistério familiar que permaneceu sem solução durante cerca de setenta anos.
No Arquivo Notarial de Ancona, Douglas encontrou um documento de 1951 que registra o destino de parte de uma casa de campo que estava em nome de Santa Cirinei, irmã de seu trisavô Giuseppe.
Depois que não se teve mais notícias de Santa, essa parte da propriedade passou por usucapião para as sobrinhas da família Cenci.
Mas a verdadeira reviravolta da pesquisa, aquela capaz de trazer novamente essa história à luz, aconteceu nas redes sociais.
Por meio da página do Facebook “Sei di Arcevia se…”, a investigação genealógica chegou até a comunidade local de Arcevia. E os moradores se mobilizaram para ajudar Douglas a reconstruir os vínculos de sua família.
“Com a ajuda da comunidade de Arcevia, em pouco tempo descobri que a senhora Nadia Giovannotti pode fazer parte da minha família, junto com minha trisavó Maddalena Battelli.”
Com o passar dos dias, novos elementos foram surgindo. A reconstrução da história familiar trouxe à luz pessoas e conexões que, até então, permaneciam escondidas, inclusive por meio das famílias Greci, Ruzziconi e Palazzi.
A pesquisa de Douglas continua justamente nesse ponto de encontro entre documentos, memória familiar e colaboração da comunidade de Arcevia.
As recentes mudanças na legislação italiana, introduzidas pela Lei Tajani 74 de 2025, tornaram mais complexo o caminho para a cidadania italiana para os bisnetos. Mas, para Douglas, essa questão não altera o sentido mais profundo de sua busca.
Daqui a três meses, ele estará em Palazzo, no lugar de onde partiram seus antepassados.
Poderá caminhar por aquelas ruas, observar aquelas casas e tocar as mesmas pedras que fazem parte da história de sua família.
Depois de tantos anos, nomes encontrados em documentos, lembranças preservadas por sua bisavó e pistas descobertas nas redes sociais poderão finalmente ganhar um lugar concreto.
E essa viagem, para Douglas, terá um valor que nenhum documento ou procedimento burocrático poderá jamais apagar.

