Poderia ser o roteiro de um filme sobre ilusionismo ou uma grande fraude, mas aconteceu de verdade. Durante anos, turistas de diversas nacionalidades acreditaram estar visitando um antigo anfiteatro romano. Na realidade, porém, tudo fazia parte de uma encenação cuidadosamente construída: de antigo, havia muito pouco.
Uma extraordinária descoberta arqueológica? Não. Uma extraordinária fraude.
Franco Malosso, também conhecido como Franz Von Rosenfranz, foi condenado por abuso de construção e falsificação de obras de arte.
Para muitos, ele pode até parecer um gênio pela complexidade da história que conseguiu criar. Afinal, a narrativa construída em torno do suposto anfiteatro era impressionante. Ela misturava personagens históricos como Júlio César e Cleópatra, além de incluir até mesmo Giulietta Capuleti a lendária Julieta da famosa sacada de Verona.
Na realidade, a estrutura “antiga” havia sido construída com materiais modernos e artificiais. Ao seu redor foi criada uma história completamente inventada, sem qualquer fundamento histórico ou arqueológico.
O local recebeu o nome de Anfiteatro Marittimo Berico e está situado em Arcugnano, a poucos quilômetros de Vicenza, no norte da Itália. Malosso apresentava o espaço como um importante sítio arqueológico da Antiguidade, afirmando que se tratava de um dos anfiteatros mais antigos do mundo.
E ele lucrava com isso? Muito.
Os turistas que participavam das visitas guiadas pagavam 40 euros por pessoa para conhecer o suposto monumento histórico.
Durante as visitas, Malosso afirmava que a estrutura havia sido construída em 393 d.C. e dizia que personalidades como Júlio César e Cleópatra teriam passado pelo local. Nesse momento, porém, a narrativa já apresentava uma enorme contradição.
Júlio César foi assassinado em 44 a.C., quase quatro séculos antes da data em que, segundo Malosso, o anfiteatro teria sido construído.
À medida que a história era analisada, especialmente por estudiosos e apaixonados por História, as inconsistências tornavam-se ainda mais evidentes. O suposto anfiteatro também era relacionado a Giulietta Capuleti, protagonista da tragédia escrita por William Shakespeare. Além de ser uma personagem literária, Julieta está associada à cidade de Verona, e não a Vicenza.
Somente cerca de vinte anos depois, as autoridades municipais decidiram investigar o caso.
O resultado?
Os investigadores encontraram inúmeros elementos incompatíveis com qualquer construção da época romana. Havia colunas de concreto, estruturas feitas de papel machê e fibra de vidro, além de técnicas utilizadas para simular artificialmente o aspecto de ruínas antigas. Toda a área ocupava aproximadamente 5 mil metros quadrados, revelando a dimensão da fraude.
As investigações também apontaram que uma colina havia sido modificada para criar uma grande área plana, permitindo a construção do falso anfiteatro.
Além disso, a consulta aos arquivos históricos e às imagens de satélite confirmou que jamais existiu qualquer estrutura desse tipo naquele local.
O aspecto mais surpreendente é que o próprio município, diante da fama alcançada pelo local e do grande número de visitantes, passou a incluir o anfiteatro nas guias oficiais de turismo, produzindo material promocional e campanhas de divulgação como se o sítio arqueológico fosse autêntico.
Quem é Franco Malosso Von Rosenfranz, o homem por trás da suposta descoberta arqueológica
Franco Malosso, que em alguns ambientes também utilizava o nome Franz Von Rosenfranz, apresentava-se como artista e construiu ao longo dos anos uma narrativa muito particular em torno do complexo.
Durante o processo judicial, sua versão dos fatos mudou diversas vezes. Inicialmente, sustentava que o anfiteatro era uma descoberta arqueológica autêntica. Posteriormente, passou a afirmar que se tratava de uma reconstrução baseada em um antigo teatro perdido. As autoridades e os especialistas, no entanto, rejeitaram essa explicação ao concluir que não existia qualquer evidência arqueológica anterior que sustentasse essa versão.
O município constituiu-se como parte civil no processo e solicitou uma indenização de 560 mil euros pelos prejuízos causados, principalmente pelos danos à imagem da cidade.
É uma história que parece saída do cinema.
Esse caso mostra como uma narrativa bem construída, mesmo repleta de erros históricos e contradições evidentes, pode convencer milhares de pessoas durante anos inclusive turistas experientes e até instituições públicas. É também um lembrete de que, quando uma boa história encontra pouca verificação dos fatos, a ficção pode acabar sendo confundida com a própria realidade.
Hoje, o falso Anfiteatro Marittimo Berico já não pode mais ser visitado. Após as investigações conduzidas pelo Ministério Público italiano, a área foi sequestrada pela Justiça e as visitas foram definitivamente suspensas. O caso também foi encerrado no âmbito judicial com a condenação definitiva de Franco Malosso pelos crimes de construção irregular e falsificação de obras de arte. Em 2026, ele foi preso para cumprir a pena de dois anos e quatro meses de reclusão, colocando um ponto final em um dos casos mais curiosos e surpreendentes da história policial italiana das últimas décadas.

