Em pleno centro de São Paulo, uma das uvas brancas mais conhecidas da Itália ganhou um dia inteiro dedicado ao território, à técnica e às possibilidades que oferece à mesa. O evento Pinot Grigio DOC Delle Venezie – Vino e Cucina, promovido pelo ICIF – International Culinary Institute of Italy em parceria com o Consorzio Vini DOC Delle Venezie, reuniu profissionais, formadores de opinião e apaixonados por vinho.

Realizado no Laboratório de Enologia do Centro Paula Souza, o encontro combinou história, território e gastronomia, com a degustação de 12 rótulos da denominação. A programação foi dividida em dois momentos: pela manhã, história do Pinot Grigio e do território de produção, seguida de oito vinhos; à tarde, diferentes possibilidades de consumo e harmonização, com mais quatro rótulos acompanhados de petiscos, frios e queijos.

O Pinot Grigio delle Venezie reúne três territórios do Nordeste da Itália — Vêneto, Friuli-Venezia Giulia e Trentino-Alto Adige — em mais de 26 mil hectares de vinhedos. A denominação concentra cerca de 82% da produção italiana da variedade. Em 2025, foram produzidas 228 milhões de garrafas, das quais 96% seguiram para o exterior.

A condução técnica ficou a cargo do sommelier Sergio Novelli Musolino, profissional com mais de 30 anos de experiência no setor. “O terroir delle Venezie, no Nordeste da Itália, mais fresco, favorece um Pinot Grigio mais elegante e mais complexo. Dentro dessa denominação, há ainda a possibilidade de fazer um blend de regiões. Por exemplo, a uva do Vêneto vai aportar mais estrutura de boca, enquanto as uvas do Trentino-Alto Adige ou do Friuli vão proporcionar mais frescor. Isso dá ao produtor uma gama de possibilidades para construir um vinho muito mais expressivo.”

A diversidade do território, portanto, torna-se uma ferramenta para combinar características diferentes e construir perfis mais complexos. Na comparação com outras regiões italianas, Musolino destaca justamente essa identidade. “Quando a gente compara com outro Pinot Grigio do centro-sul da Itália, é notória a diferenciação no sentido de qualidade e complexidade. É outro produto, e acho que um dos principais intuitos da Delle Venezie é mostrar que a Itália pode, sim, fazer, a partir do Pinot Grigio, que é sua uva branca mais popular no mundo, um produto de altíssima gama.”

Uma uva democrática
Outra característica do Pinot Grigio é sua capacidade de alcançar públicos muito diferentes. A variedade pode ser acessível ao consumidor que está começando a conhecer vinhos e, ao mesmo tempo, oferecer espaço para interpretações mais sofisticadas.

“O primeiro, o Pinot Grigio, tem a vantagem de ser uma uva extremamente democrática. Ele se mostra muito rápido na taça, com notas florais, fruta madura, frescor intenso, e é muito versátil à mesa. O Pinot Grigio talvez seja, por isso, a uva mais abrangente. Tendo a possibilidade de produzir também um produto de altíssima gama, como o Pinot Grigio delle Venezie, temos um vinho extremamente consensual, que vai comunicar com clientes menos especializados e também se mostrar adequado para aquela pessoa que tem mais sensibilidade e background de degustação. Poucas uvas na Itália têm a possibilidade de atingir tanto o público geral quanto o especialista.”

A história da variedade também ajuda a explicar seu peso na vitivinicultura italiana. A produção de vinho na região remonta a muitos séculos, enquanto a presença documentada do Pinot Grigio na área veneziana data do final do século XIX. A denominação atual contempla vinhos tranquilos, frisantes e espumantes, além das versões branca e ramato.

ICIF amplia presença no Brasil
O encontro também faz parte de uma nova fase do ICIF no Brasil. Fundado em 1991 no Piemonte, o instituto já formou mais de 15 mil profissionais de cerca de 40 países em áreas como cozinha italiana, confeitaria, panificação, pizza, gelateria, enologia e azeites. A instituição passa agora a ampliar sua presença nacional, com representantes no Sul e no Distrito Federal. À frente da operação brasileira está o jornalista especializado em gastronomia, vinhos e azeites Ricardo Castanho.

“Em abril, o ICIF, após anos sendo gerenciado pela Paola Tedeschi, que se aposentou, passou a uma nova gestão, e a gente assumiu com a ideia de ampliar e capitalizar o ICIF no Brasil. Estamos com dois representantes novos, no Sul do país e no Distrito Federal, e a ideia é levar o nome da escola, que formou dezenas de chefs brasileiros, para outras regiões do Brasil. A gente quer fazer isso muito por meio desses cursos de promoção, trazendo parceiros do Piemonte, como o Consorzio Pinot Grigio, o Consorzio Barbera d’Asti, além de vinhos mantovanos e da Lombardia. Uma série de eventos que deve continuar neste ano e no próximo.”

A aproximação entre instituições italianas, produtores e profissionais brasileiros busca justamente transformar o vinho em uma porta de entrada para conhecer melhor os territórios e a cultura gastronômica italiana. Criado em 2017, o Consorzio Vini DOC Delle Venezie reúne Vêneto, Friuli-Venezia Giulia e Trentino-Alto Adige sob uma única denominação e trabalha na proteção e promoção do Pinot Grigio produzido na região.

Em São Paulo, a proposta foi além de simplesmente provar diferentes garrafas. O encontro mostrou como uma variedade conhecida mundialmente pode carregar, dentro da taça, diferenças de território, clima, técnica e tradição — e como essa história também encontra espaço em um mercado brasileiro cada vez mais interessado nos vinhos italianos.
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