Ducati e Lamborghini na vitrine: Volkswagen em crise avalia vender suas joias italianas

Durante décadas, Ducati e Lamborghini foram muito mais do que fabricantes de motocicletas e superesportivos. Tornaram-se símbolos da criatividade, da engenharia e do design italiano, duas das joias mais valiosas da chamada Motor Valley, a região da Emília-Romanha que concentra algumas das marcas mais prestigiadas da indústria automobilística mundial. Hoje, porém, o futuro dessas duas empresas pode voltar a mudar de mãos.

Segundo o jornal italiano Corriere della Sera, o grupo alemão Volkswagen avalia vender a Ducati e estudar uma possível abertura de capital da Lamborghini como parte de um amplo plano de reestruturação financeira destinado a reduzir custos e fortalecer o caixa.

As duas marcas passaram para o controle da Volkswagen há mais de uma década. A Lamborghini foi adquirida em 1998, por meio da Audi, enquanto a Ducati entrou no grupo em 2012. Desde então, ambas preservaram sua identidade italiana, mantendo produção, centros de desenvolvimento e grande parte da engenharia na região da Emília-Romanha, transformando-se em referências globais de desempenho e inovação.

Agora, no entanto, o cenário econômico mudou. A Volkswagen atravessa uma das fases mais delicadas de sua história recente. A fabricante enfrenta queda nas vendas em mercados estratégicos, sobretudo China e América do Norte, aumento da concorrência das montadoras chinesas de veículos elétricos, custos elevados da transição energética e o impacto das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.

O resultado foi uma forte pressão sobre as contas da companhia. O lucro líquido de 2025 caiu para cerca de 6,9 bilhões de euros, praticamente metade do registrado anteriormente, enquanto o endividamento do grupo continua elevado. Como resposta, o presidente-executivo Oliver Blume colocou em prática um ambicioso plano de reestruturação que prevê cortes de aproximadamente 100 mil postos de trabalho, fechamento de quatro fábricas na Alemanha e redução de investimentos nos próximos cinco anos.

É nesse contexto que surgem as especulações envolvendo duas das marcas mais prestigiadas do grupo.
No caso da Ducati, a hipótese seria uma venda integral. A ideia não é nova: ela já havia sido discutida em 2017, mas acabou sendo arquivada.

Desta vez, porém, o cenário parece diferente. Apesar das dificuldades enfrentadas pela matriz, a fabricante italiana vive uma fase extremamente positiva. Além de dominar a MotoGP nos últimos anos, a empresa mantém receitas próximas de 1 bilhão de euros e continua fortalecendo sua presença nos mercados internacionais, incluindo o Brasil, um dos principais destinos das motocicletas premium italianas na América Latina.

A situação da Lamborghini é ainda mais curiosa. Em vez de uma venda, a Volkswagen estuda uma possível oferta pública de ações (IPO), mantendo parte do controle da empresa, mas levando a marca para a bolsa de valores. A estratégia permitiria levantar recursos sem abrir mão completamente de um dos ativos mais rentáveis do grupo.

A fabricante de Sant’Agata Bolognese vive um momento histórico. Em 2025 registrou receitas recordes de aproximadamente 3,2 bilhões de euros, mostrando uma capacidade de crescimento que desafia até mesmo a desaceleração observada no mercado global de carros de luxo.

As informações divulgadas pelo Financial Times e repercutidas pelo Corriere della Sera indicam que consultores financeiros voltaram a apresentar propostas concretas para essas operações, embora a Volkswagen não tenha comentado oficialmente as especulações.

Para a Itália, a discussão vai além das finanças. Ducati e Lamborghini representam parte importante da identidade industrial do país e da reputação internacional do Made in Italy. Ambas nasceram na Emília-Romanha, uma região que abriga também marcas como Ferrari, Maserati, Pagani e Dallara, formando um dos maiores polos mundiais dedicados ao automobilismo, ao motociclismo e à engenharia de alto desempenho.

Mesmo sob controle estrangeiro, essas empresas continuaram produzindo na Itália, preservando milhares de empregos altamente qualificados e reforçando o papel da Motor Valley como referência global em inovação automotiva.

Por enquanto, nenhuma decisão foi tomada. Mas o simples fato de Volkswagen voltar a considerar mudanças na estrutura societária de duas de suas marcas mais emblemáticas mostra como a indústria automobilística vive uma fase de profundas transformações. Entre eletrificação, competição chinesa, novas exigências regulatórias e mudanças no comportamento do consumidor, até os maiores ícones do setor podem acabar entrando em uma nova etapa de sua história.
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