Lago Maggiore chega ao limite da seca e Itália pega emprestada à água do Lago de Lugano

A solução é emergencial e nasceu de um acordo entre os dois países. A partir desta medida, a vazão de água liberada pelo Lago de Lugano através do rio Tresa, que conecta os dois lagos e percorre cerca de 13 quilômetros entre o Ticino e a Lombardia, será aumentada de 3 para 8 metros cúbicos por segundo.
A operação tem um objetivo que vai muito além de recuperar o nível do lago. A água do Maggiore alimenta o rio Ticino, que segue em direção ao Po e atravessa uma das áreas agrícolas mais importantes da Itália, incluindo o grande distrito produtor de arroz do norte do país.
A situação do Lago Maggiore é consequência de uma combinação particularmente desfavorável de fatores. A região enfrenta uma estiagem prolongada justamente depois de semanas marcadas por temperaturas muito acima do normal.
O nível do lago caiu para pouco mais de 192 metros acima do nível do mar, enquanto durante os períodos de cheia pode chegar a cerca de 195 metros. Segundo os dados citados na informação sobre a emergência, o nível atual é inferior ao registrado durante os verões extremamente quentes de 2003 e 2024.
O problema não fica restrito às margens do lago. A água que sai do Maggiore pelo Ticino é fundamental para o sistema hídrico do vale do Po, uma das áreas agrícolas mais produtivas da Europa. Entre os setores mais afetados está justamente a rizicultura, que depende de grandes volumes de água para manter as plantações. A falta de disponibilidade hídrica já chegou a representar cerca de 70% da necessidade total do setor, colocando em risco parte da produção.
É nesse cenário que entra o Lago de Lugano. Os dois grandes corpos d’água estão conectados pelo rio Tresa, que nasce no Lago de Lugano, atravessa a região fronteiriça e desemboca no Lago Maggiore, próximo a Luino, na província italiana de Varese. O acordo entre Itália e Suíça prevê, portanto, uma espécie de transferência emergencial de água entre as duas bacias. A vazão em Ponte Tresa será elevada para 8 metros cúbicos por segundo, mais que o dobro do fluxo habitual previsto na medida.
A decisão foi tomada durante uma reunião extraordinária do organismo bilateral responsável pela gestão dos níveis do Lago Maggiore e pela coordenação dos recursos hídricos entre os dois países. A medida mostra também como a crise climática pode transformar a gestão da água em uma questão que ultrapassa fronteiras. Neste caso, um lago suíço passa a ajudar a sustentar um sistema hídrico italiano que abastece áreas agrícolas estratégicas.
A emergência ocorre depois de uma sequência de ondas de calor que atingiu grande parte da Itália durante o verão. O norte do país, especialmente as regiões próximas aos Alpes e ao vale do Po, vem enfrentando temperaturas excepcionalmente altas combinadas com a falta de precipitações. O resultado é uma pressão simultânea sobre rios, lagos, agricultura e sistemas de abastecimento. Em uma região onde a água dos Alpes e dos grandes lagos é fundamental para a agricultura, a combinação de temperaturas elevadas e pouca chuva reduz rapidamente as reservas disponíveis.
O caso do Lago Maggiore é particularmente simbólico porque transforma uma questão normalmente invisível — a disponibilidade de água — em algo que pode ser visto diretamente na paisagem. E, por enquanto, a solução encontrada é simples na aparência, mas extraordinária na escala: a água de um lago suíço será usada para ajudar a manter vivo um lago italiano e, com ele, uma das áreas agrícolas mais importantes do país.
