
O motivo é bastante concreto: a chuva prejudicou as condições da pista de tufo, o material colocado especialmente na Piazza del Campo para a corrida. Como o terreno precisa oferecer condições adequadas para os cavalos e os jóqueis, conhecidos como fantini, a prefeitura decidiu não correr riscos.
O episódio chama atenção também porque o Palio não é uma corrida convencional. A competição faz parte da própria identidade de Siena e envolve as 17 contrade, os históricos bairros da cidade, que disputam a prova em torno da praça medieval. São duas edições por ano: uma em julho, dedicada à Madonna di Provenzano, e outra em agosto, em homenagem à Assunção de Maria.
E a chuva parece ter adquirido um protagonismo incomum. O Palio de agosto de 2026 já havia sido transferido do dia 16 para o dia 17 e agora ganhou uma segunda mudança. Somando os últimos anos, chega a cinco o número de adiamentos provocados pelo mau tempo nos últimos seis Palii: julho e agosto de 2024, julho de 2025 e julho e agosto de 2026.
Para uma tradição que atravessa séculos, é uma sequência particularmente rara. Desde o século XIX, foram registradas 63 edições adiadas em relação à data originalmente prevista: 35 em julho e 28 em agosto. Normalmente, quando acontece, a mudança é de apenas um dia. Há, portanto, uma pequena história sendo escrita antes mesmo de os cavalos entrarem na pista.
O precedente mais próximo para um adiamento de dois dias do Palio dell’Assunta aconteceu justamente em 1976. Naquele ano, a corrida prevista para 16 de agosto foi realizada no dia 18, com a vitória da contrada della Civetta, montada pelo lendário Andrea Degortes, conhecido como Aceto, sobre o cavalo Panezio.
Agora Siena volta a esperar.
A Piazza del Campo, normalmente ocupada pela multidão, pelas bandeiras das contrade e pela atmosfera quase medieval que acompanha a preparação da corrida, terá de aguardar mais um pouco. A decisão final dependerá novamente das condições da pista.
E há uma curiosidade que dá ainda mais peso ao calendário: o Palio dell’Assunta nunca foi disputado em 19 de agosto. Ou seja, se o tufo e o céu permitirem, a tradição tentará preservar, nesta terça-feira, uma das poucas certezas que ainda restam em uma festa que, nos últimos anos, vem sendo cada vez mais obrigada a negociar com a chuva.
