
O caso já é tratado pelas autoridades como uma operação de grande complexidade. Entre as peças estão três painéis do Políptico de São Gregório, uma das obras mais importantes de Antonello ainda conservadas em sua cidade natal, e uma pequena pintura frente e verso. Duas outras partes do políptico também foram levadas durante a ação, mas acabaram abandonadas do lado de fora do museu e recuperadas.
O episódio chama atenção não apenas pelo valor artístico das peças, praticamente impossível de calcular em termos de mercado, mas também pela escolha do momento. Enquanto milhares de pessoas estavam concentradas no centro de Messina para a festa de Ferragosto, os ladrões agiram na área do museu, localizado junto ao litoral.
Segundo as primeiras informações, o alarme foi acionado e as câmeras continuaram funcionando, mas os responsáveis conseguiram concluir a operação e escapar antes da chegada das forças de segurança. As imagens agora estão sendo analisadas pelos investigadores.
O alvo principal foi o Políptico de São Gregório, realizado por Antonello em 1473. A obra havia sido encomendada por Fabria Cirino, abadessa do mosteiro de Santa Maria extra moenia, em Messina. Originalmente, o conjunto era formado por seis painéis; um deles desapareceu em algum momento da história. O que restou constitui uma das grandes obras do Renascimento siciliano.
O painel central representa a Madonna com o Menino, acompanhada por santos, enquanto as partes superiores mostram o Anjo Gabriel e a Anunciação. A composição é particularmente importante porque revela a capacidade de Antonello de combinar a tradição italiana do Renascimento com influências da pintura flamenga, criando espaços mais realistas e uma atenção extraordinária aos detalhes.
A história da obra também é marcada por tragédias. O terremoto que devastou Messina em 1908 provocou danos importantes ao patrimônio da cidade e afetou também o políptico, que passou posteriormente por intervenções de restauração. Sobreviveu ao terremoto, às mudanças de museu e aos séculos de transformações da cidade. Agora, justamente em Messina, voltou a ser vítima de uma ação criminosa.
A outra peça levada é a chamada Tavoletta bifronte, uma pequena pintura de apenas 16 por 11,9 centímetros. De um lado está representada a Madonna com o Menino e um franciscano em oração; do outro, Cristo em Pietà. A obra foi atribuída a Antonello em 2003 e adquirida naquele mesmo ano pela Região da Sicília em um leilão da Christie’s. Sua pequena dimensão indica que provavelmente foi concebida originalmente para devoção privada.
É justamente essa uma das perguntas centrais da investigação. A hipótese de um roubo sob encomenda está entre as linhas consideradas pelas autoridades. Obras tão conhecidas e facilmente identificáveis dificilmente poderiam ser colocadas no mercado tradicional sem despertar atenção. Além disso, o fato de os criminosos terem escolhido precisamente determinadas peças e aparentemente se movimentado com rapidez dentro do edifício alimenta a suspeita de que o alvo tenha sido definido previamente.
O episódio ocorre poucos meses depois de outro caso que havia recolocado Antonello no centro das atenções na Itália: o Estado italiano comprou por cerca de US$ 15 milhões uma versão de Ecce Homo, destinando-a posteriormente ao Museu Nacional de Abruzzo, em L’Aquila. A decisão provocou uma discussão em Messina, onde setores da sociedade defendiam que a obra deveria retornar à cidade natal do artista.
Antonello da Messina, que viveu no século XV e morreu em 1479, é considerado o principal nome da pintura siciliana do Quattrocento. Seu trabalho marcou uma passagem fundamental na arte italiana, aproximando técnicas renascentistas italianas das inovações da pintura flamenga. Obras suas estão hoje em algumas das maiores coleções de arte da Europa, incluindo a National Gallery de Londres e museus de Dresden e Madri.
Por isso, o roubo de Messina não representa apenas a perda temporária de quatro objetos de um museu. É um golpe contra uma parte da memória artística de uma cidade que conserva relativamente poucas obras de seu maior pintor. E o fato de tudo ter acontecido justamente durante a noite de Ferragosto, quando Messina estava voltada para sua festa mais tradicional, acrescenta ao episódio uma dimensão quase simbólica: enquanto a cidade celebrava sua história nas ruas, alguém entrava no museu para levá-la embora.
