De sobrenomes a receitas, de dialetos a fotografias antigas, a cultura italiana ganhou novas formas ao redor do mundo. Um centro de estudos na Itália se dedica a contar essas histórias antes que elas desapareçam

O que resta de um país quando alguém precisa deixá-lo?

Às vezes, fica uma fotografia dentro de uma gaveta. Uma receita repetida de memória. Um sobrenome que atravessou gerações. Uma palavra que ninguém mais sabe exatamente de onde veio. Ou uma música que continua sendo cantada milhares de quilômetros distante do lugar onde nasceu.

A história da imigração italiana é feita justamente dessas pequenas permanências. Entre o fim do século XIX e boa parte do século XX, milhões de italianos deixaram o país em busca de trabalho e de novas possibilidades. Muitos vieram para o Brasil. Outros seguiram para a Argentina, Estados Unidos, Canadá e diferentes partes do mundo. Levaram consigo muito mais do que malas: levaram modos de falar, cozinhar, construir, celebrar e enxergar a vida.

É essa história, ao mesmo tempo italiana e mundial, que está no centro do trabalho do Centro Studi Grandi Migrazioni, criado em Carmignano di Brenta, na região do Vêneto, na Itália com a proposta de investigar e preservar a chamada “italianidade no mundo” a partir das grandes migrações, reunindo documentos, pesquisas, fotografias, vídeos, relatos e experiências que ajudam a entender como a cultura italiana se transformou depois de cruzar as fronteiras.

Mas talvez a parte mais interessante esteja justamente na maneira como essa memória é contada.

Não se trata apenas de olhar para o passado, o Centro mantém projetos educacionais em escolas, promove conferências e jornadas de estudo, desenvolve pesquisas com universidades e instituições, organiza exposições, produz e reúne documentários e publicações e mantém um acervo dedicado à história das migrações. Também trabalha com língua e cultura italiana e com projetos que aproximam as comunidades de suas próprias histórias.

Em outras palavras, a imigração deixa de ser apenas um capítulo nos livros de história e passa a ser observada por aquilo que ela produziu no cotidiano.

É possível encontrá-la na arquitetura de uma cidade, na festa de uma comunidade, em uma expressão preservada por uma família, na música, na gastronomia ou até mesmo em um dialeto que sobreviveu longe de sua terra de origem.

Poucos lugares ajudam a entender essa transformação tão bem quanto o Brasil.

Segundo dados apresentados pelo próprio Centro Studi, o país reúne mais de 30 milhões de descendentes de italianos, uma das maiores comunidades de origem italiana do mundo. São Paulo, sozinha, é apontada como uma das grandes concentrações dessa população, com cerca de 8 milhões de descendentes.

Mas números contam apenas uma parte da história, a outra está nas cidades do interior paulista, nas comunidades do Sul, nos sobrenomes que se multiplicaram ao longo das gerações e nas famílias que, muitas vezes sem perceber, continuam reproduzindo costumes trazidos por seus antepassados.

Uma pesquisa publicada pelo Centro sobre Batatais, por exemplo, mostra como a imigração italiana ajudou a formar a identidade cultural do município paulista. Entre 1880 e 1940, imigrantes vindos de regiões como Vêneto, Lombardia, Emilia-Romagna e Toscana se estabeleceram na região, inicialmente ligados sobretudo às lavouras de café, e depois também ao comércio, ao artesanato e a outras atividades urbanas.

É nesse ponto que a história deixa de ser exclusivamente italiana, ela passa a ser brasileira.

E talvez seja essa a maior riqueza das grandes migrações: uma cultura não permanece intacta quando viaja. Ela se mistura, ganha novos sotaques, incorpora novos ingredientes e cria identidades que não pertencem completamente a um lugar ou a outro.

Guardar histórias para entender o presente

O trabalho do Centro Studi Grandi Migrazioni também acompanha uma nova fase desse movimento.

Se no passado muitos italianos deixaram o país em busca de melhores condições de vida, hoje existe uma nova mobilidade internacional, formada por estudantes, profissionais e expatriados que vivem em diferentes países.

A pergunta, portanto, mudou. Já não é apenas “por que eles partiram?”, mas também “o que acontece com uma cultura quando seus habitantes passam a viver espalhados pelo mundo?”.

Ao reunir documentos antigos e histórias contemporâneas, o Centro tenta construir justamente essa ponte entre passado, presente e futuro. A instituição afirma ter levado suas pesquisas e atividades a mais de 30 mil estudantes e a centenas de escolas, universidades e comunidades na Itália e na América do Sul.

No fundo, é uma forma de olhar para a imigração por uma perspectiva menos estatística e mais humana, porque grandes movimentos migratórios são feitos de milhões de pessoas, mas a memória deles costuma sobreviver em detalhes. Na letra de uma música. Na fotografia de um bisavô. No nome de uma praça. Na receita que passou de mãe para filha. No sotaque que resistiu ao tempo.

E talvez seja justamente por isso que, mais de um século depois das grandes partidas, a Itália continue existindo em tantos lugares onde ela nunca esteve.

Às vezes, basta prestar atenção para encontrá-la.

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