A Cruz de Savoia voltou: a história italiana que ainda vive no Palmeiras

Em azul e com a Cruz de Savoia no peito, terceiro uniforme lançado pelo clube e pela PUMA revisita uma das páginas mais italianas — e menos conhecidas — da história do Verdão

Antes de ser Palmeiras, ele era Palestra Italia.

E antes de a camisa verde se tornar uma das imagens mais reconhecidas do futebol brasileiro, havia uma comunidade de imigrantes italianos em São Paulo tentando construir, longe de casa, uma nova vida sem romper os vínculos com suas origens.

Foi nesse encontro entre imigração, identidade e futebol que nasceu, em 26 de agosto de 1914, o Palestra Italia. A iniciativa foi liderada por Luigi Cervo, com a participação de Vicente Ragognetti, Luigi Marzo e Ezequiel Simone, entre outros fundadores.

A inspiração vinha também do futebol italiano que chegava ao Brasil. Em uma época em que excursões de clubes europeus despertavam enorme interesse, equipes como Torino e Pro Vercelli ajudaram a alimentar entre os imigrantes a ideia de criar uma agremiação que representasse, em São Paulo, parte daquela identidade.

O nome escolhido dizia muito: Palestra Italia. “Palestra”, palavra de origem grega incorporada ao italiano, remetia ao espaço de exercícios e treinamento — algo próximo de “academia”.

Mas o clube não demoraria a criar uma identidade própria. A estreia em campo aconteceu em 24 de janeiro de 1915, contra o Sport Club Savoia, em Votorantim. O Palestra venceu por 2 a 0, com gols de Bianco e Alegretti, ambos de pênalti, e conquistou ali seu primeiro troféu, a Taça Savoia.

O detalhe que hoje ganha novo significado é que, naquele primeiro jogo, o Palestra ainda usava no uniforme as letras “P” e “I”. A Cruz de Savoia surgiria na camisa no ano seguinte, quando o clube se preparava para disputar seu primeiro Campeonato Paulista. O símbolo pertencia à Casa de Savoia, família real italiana, e também era utilizado por outras importantes referências do futebol italiano daquele período, entre elas a Pro Vercelli.

Em 1916, portanto, a cruz apareceu no peito dos jogadores palestrinos e mais de um século depois, ela volta a ocupar esse lugar.

A mudança mais dramática da história veio durante a Segunda Guerra Mundial. Com o Brasil alinhado aos Aliados, o governo de Getúlio Vargas passou a restringir manifestações e referências relacionadas às potências do Eixo. Para um clube que carregava “Italia” no próprio nome, o período foi particularmente difícil.

Em 1942, o Palestra Italia teve de abandonar a denominação italiana. Primeiro tornou-se Palestra de São Paulo. Pouco depois, em setembro daquele ano, adotou definitivamente o nome Sociedade Esportiva Palmeiras.

O clube, porém, não desapareceu para dar lugar a outro. A instituição continuou sua trajetória, preservando elementos fundamentais de sua identidade. O próprio escudo atual mantém, em sua composição, o contorno da Cruz de Savoia e o tradicional “P”. As oito estrelas do brasão, por sua vez, fazem referência ao mês de fundação do Palestra Italia.

É uma história de transformação, mas também de continuidade e talvez seja justamente aí que a relação entre Palmeiras e Itália fique mais interessante.

É nesse contexto que chega o novo terceiro uniforme do Palmeiras para 2026.

Apresentado pelo clube e pela PUMA, o modelo abandona o tradicional verde e aparece em azul, numa referência à estética da tradicional Azzurra, enquanto recupera um dos símbolos mais antigos ligados à trajetória palestrina: a Cruz de Savoia.

A escolha não é apenas estética. A campanha de lançamento, batizada de Somos Palestra Italia”, foi filmada na Itália, passando por Milão, Bérgamo e pelos arredores de Gressoney-Saint-Jean, no Vale de Aosta, região ligada à história da Casa de Savoia. Depois, a narrativa chega a São Paulo, cidade onde o clube nasceu, aproximando a memória dos primeiros imigrantes da nova geração de torcedores.

É como se a camisa fizesse o caminho inverso daquele percorrido pelos imigrantes: parte da Itália, atravessa a história e volta a São Paulo.

Na peça, a referência às origens aparece em pequenos detalhes. A versão Jogador traz no cobre-gola a inscrição “Avanti Palestra 2026/1914, enquanto a frase “Scoppia che la vittoria è nostra” traduz a força e a paixão associadas à torcida palestrina.

A nova tipografia, em dourado e com letras minúsculas, também foi criada especialmente para a parceria. Na barra, um patch com o mapa da Itália completa a composição. São detalhes que podem passar despercebidos à primeira vista, mas que, para quem conhece a história, funcionam quase como pequenas pistas.

Há algo maior nessa história do que uma camisa de futebol, a trajetória do Palmeiras é também um pequeno retrato de um fenômeno que transformou o Brasil: a imigração italiana.

Milhares de famílias deixaram a Itália entre o fim do século XIX e o início do século XX. Trouxeram sobrenomes, sotaques, receitas, festas, crenças, formas de trabalhar e de se relacionar. Ao chegar, essas referências se misturaram à cultura brasileira e ganharam novos significados.

Foi assim com tantas famílias. E foi assim também com o Palestra Italia.

No caso do Palmeiras, a resposta está à vista.

Está no “P” que atravessou diferentes escudos. Está na Cruz de Savoia que apareceu no uniforme em 1916 e agora retorna ao peito de uma nova geração. Está no nome Palestra, que sobreviveu mesmo quando o clube precisou abandoná-lo oficialmente.

E está, sobretudo, na ideia de que mudar não significa necessariamente esquecer de onde se veio.

O novo uniforme THIRD entra em campo oficialmente hoje, 23 de agosto, na partida contra o Vasco, pelo Campeonato Brasileiro, no Allianz Parque.

Mas a camisa chegou às lojas antes, a partir da sexta-feira, 21 de agosto, o modelo está disponível nas lojas do ecossistema Palmeiras e da PUMA. A versão Jogador custa R$ 599,99; a Torcedor, R$ 429,99; e a infantil, R$ 369,99.

Mais do que uma terceira camisa, porém, o lançamento recupera uma imagem que estava guardada nas primeiras páginas da história palestrina. A Cruz de Savoia volta ao peito.

E, com ela, volta também uma lembrança: antes de ser um dos clubes mais vencedores do Brasil, o Palmeiras foi uma maneira encontrada por imigrantes italianos para construir uma nova história sem abandonar completamente a antiga.

Talvez seja por isso que, mais de 110 anos depois, ainda faça sentido dizer: somos Palestra Italia.

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