Histórias de Famílias Italianas no Brasil: A história da família Cappello-Capellato (Parte 2) da Itália ao Brasil

Na primeira parte desta história, acompanhamos a trajetória de Angelo Cappello, desde seu nascimento na região de Pádua, na Itália, até a chegada ao Brasil em 1895. Em Valinhos, a família construiu uma nova vida, primeiro trabalhando na agricultura e depois iniciando uma fábrica de cerâmica.

Mas Angelo ainda estava longe de concluir sua trajetória. A partir dos anos 1920, uma nova oportunidade surgiria e mudaria definitivamente o destino dos Capellato: o transporte de pessoas entre Valinhos e Campinas.

É a partir desse momento que começa a segunda parte desta história.

Dos anos 1920 ao transporte público de Valinhos

Nos anos 1920, Angelo Capellato deu mais um passo que mudaria o futuro da família.

Com as economias acumuladas durante os anos de trabalho, comprou um caminhão e começou a transportar agricultores, seus equipamentos e suas mercadorias pelo trajeto entre Valinhos e Campinas. Era uma atividade simples, nascida de uma necessidade concreta, mas que abriria as portas para um novo capítulo da história dos Capellato.

Na mesma década veio uma aquisição ainda mais importante: uma Jardineira.

As Jardineiras estavam entre os primeiros veículos utilizados como ônibus no Brasil. Construídas aproveitando o motor e a mecânica de um caminhão, representavam uma solução simples, mas inovadora, para conectar cidades e permitir que as pessoas se deslocassem com maior facilidade.

Foi justamente depois da aquisição da Jardineira que Angelo fundou a “Empresa de Ônibus Capelato”, tornando-se um dos pioneiros do transporte público de Valinhos.

Os primeiros anos, porém, não foram fáceis.

Durante a década de 1940, também por causa das dificuldades provocadas pela guerra e da escassez de combustível, os veículos utilizados pela família eram alimentados por gasogênio, um sistema que permitia obter combustível por meio da combustão da madeira.

Apesar das dificuldades, Angelo não parou. Com muito trabalho e, sobretudo, com a ajuda dos filhos, a atividade começou lentamente a crescer. No início havia apenas um veículo, depois dois, até chegar a uma frota de dez veículos.

As Jardineiras percorriam a antiga estrada de Campinas e se tornaram uma presença familiar no cotidiano dos moradores de Valinhos. Estudantes que precisavam chegar às escolas, pessoas que iam ao hospital e trabalhadores que todos os dias se deslocavam até Campinas utilizavam esses veículos em seus trajetos.

Ainda hoje, décadas depois, muitos moradores de Valinhos se lembram das antigas Jardineiras Capelato.

Com o passar dos anos e a chegada ao Brasil de ônibus cada vez mais modernos, a família substituiu progressivamente as Jardineiras por ônibus propriamente ditos. A empresa ampliou sua atividade, passando a conectar diferentes regiões e bairros de Valinhos e chegando também a Campinas, Louveira, Vinhedo, Joaquim Egídio e Sousas.

O transporte público já havia se tornado muito mais do que uma atividade comercial: havia se transformado em parte da vida da família Capellato e da própria comunidade.

Os últimos anos

Mas por trás do empresário e do homem que havia construído essa atividade existia também um Angelo Capellato mais íntimo, conhecido principalmente por sua família.

Os relatos transmitidos pelos descendentes o descrevem como um homem severo, mas justo, e, ao mesmo tempo, muito carinhoso com os netos.

Quando os encontrava, tinha o hábito de tirar uma moeda do bolso e entregá-la a eles para que pudessem comprar doces. Um gesto aparentemente simples, mas que permaneceu na memória da família como uma das lembranças mais carinhosas ligadas à sua figura.

Angelo também possuía uma característica muito particular: um bigode extremamente longo, do qual tinha muito orgulho. Não permitia que ninguém o cortasse, e aquele bigode acabou se tornando quase sua marca registrada.

Viúvo desde 1938, passou os últimos anos de sua vida na casa da Avenida Independência, em Valinhos. Era comum encontrá-lo sentado em sua cadeira de balanço, no quintal dos fundos da casa.

Morreu em 7 de dezembro de 1951, na mesma residência.

Havia dedicado grande parte de sua vida à construção de uma nova existência no Brasil. Chegara da Itália ainda jovem, trabalhara no campo, iniciara uma fábrica de cerâmica e depois transformara um simples caminhão e uma Jardineira no início de uma atividade que continuaria por gerações.

O legado da família Capellato

A história de Angelo, porém, não terminou com sua morte.

Durante muitos anos, os Capellato continuaram transportando os moradores de Valinhos, tornando-se parte integrante do cotidiano da cidade. O que havia começado como o projeto de um imigrante italiano transformou-se em uma atividade familiar conduzida pelos filhos e, posteriormente, pelos netos e bisnetos.

Geração após geração, o nome Capellato permaneceu ligado ao transporte e à história de Valinhos.

O reconhecimento dessa presença também permaneceu na própria toponímia da cidade. Em Valinhos existe uma rua chamada “Rua Angelo Capellato”, enquanto outras vias receberam os nomes de filhos, netos e bisnetos, como testemunho da contribuição da família para o desenvolvimento do transporte e para a vida da comunidade.

A história de Angelo Capellato é, no fundo, a história de muitos imigrantes italianos no Brasil: partir quase sem nada, enfrentar o trabalho e as dificuldades, construir uma atividade e deixar algo para as gerações seguintes.

Mas, no caso dos Capellato, existe algo a mais. Seu nome não permaneceu apenas na memória da família: entrou nas ruas de Valinhos, justamente pelas mesmas ruas percorridas durante décadas por seus ônibus.

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