Há um lugar na Sardenha onde a idade não é um limite, mas uma continuidade. Onde os números deixam de ser estatísticas e se tornam histórias, rostos, hábitos. Chama-se Osini, pouco mais de 700 habitantes no coração da Ogliastra, e aqui o tempo não passa: ele se deposita.
Tziu Mario tem 102 anos e ainda dança. Não para provar algo, mas porque o corpo se lembra. Tziu Cesare sai para tomar café no bar do vilarejo, com a naturalidade de quem nunca deixou de pertencer ao lugar. Tziu Vittorio, com 100 anos recém-completados, recita os nomes dos nuraghi como se fossem velhos conhecidos. Tzia Assunta prepara culurgiònis com as próprias mãos, sem pressa. Tzia Battistina, com 106 anos, estende roupas ao sol. Gestos mínimos, aparentemente insignificantes. Mas é justamente aí que se esconde algo que em outros lugares já desapareceu.
Aqui, os idosos não são um peso. São uma linguagem viva.
Em Osini, eles não são chamados apenas pelo nome. São “tzia” e “tziu”. Tia, tio. Porque, ao envelhecer, tornam-se parentes de toda a comunidade. Uma forma de tratamento que revela muito mais do que qualquer estudo acadêmico: a comunidade não é um conceito abstrato, é uma prática cotidiana.
E os números esses, sim impressionam até os especialistas.
Neste pequeno vilarejo, cinco pessoas ultrapassaram os 100 anos (Battistina Piras, Assunta Cannas, Mario Lobina, Cesare Serra e Vittorio Mura), em uma população que não chega a 700 habitantes. Isso significa uma proporção extraordinária: cerca de 1 centenário para cada 140 habitantes, um índice que supera em 27 vezes a média regional da Sardenha e em 17 vezes a média da província de Nuoro e de outras áreas da chamada Blue Zone. Até poucos meses atrás, eram oito centenários um número quase inconcebível para um território tão pequeno além de outros nonagenários próximos desse marco.
Se a Ogliastra é considerada uma das áreas mais longevas do planeta, Osini hoje se impõe como um ponto extremo desse fenômeno. E não se trata apenas de viver mais. Trata-se de viver melhor.
Battistina Piras, nascida em 1919, atravessou o século XX entre trabalho, migração e resistência. Viveu por décadas em Milão, longe dessa “ilha da longevidade”, o que desmonta explicações simplistas baseadas apenas no território. Criou filhos, sustentou a família como doméstica, nunca se poupou. Hoje, ainda sobe escadas sozinha e recusa ajuda. Quando perguntam como se sente, responde com ironia: “Muito mal. Nem sei como cheguei até aqui”. Talvez até os lamentos façam parte do segredo.
Assunta Cannas nunca se casou. Trabalhou no campo, foi cozinheira, ajudou a criar sobrinhos. Hoje vive com uma sobrinha e continua cozinhando, ainda amassando a massa com as mãos. Conta histórias de pretendentes recusados, de escolhas feitas, de liberdade vivida. Sua vida não seguiu o roteiro esperado e talvez seja justamente por isso que tenha sido tão longa.
Mario Lobina, que chegará aos 103 anos, encara tudo com humor: “Cuidado, a aparência engana”. Trabalhou como operário e agricultor, mas foi na dança que encontrou expressão. Sabia dançar de tudo: sardo, liscio, tango. Foi um dos primeiros a ter um toca-discos no vilarejo e ensinava os jovens a dançar. O segredo? “Comi e bebi”. Uma resposta simples demais para agradar a medicina.
Cesare Serra trabalhou na Alemanha, em uma mina a 400 metros de profundidade. Viu a morte de perto quando um desabamento matou colegas. Decidiu voltar. Quando perguntado sobre o momento mais bonito de sua vida, não hesitou: “Quando eu ia à escola”. Um detalhe que desmonta qualquer narrativa óbvia sobre sucesso ou felicidade.
Vittorio Mura, o mais jovem entre os centenários, ironiza: “Ainda sou um garoto de 20 anos”. Teve seis filhos, trabalhou como guarda florestal e conhece cada pedaço dessa terra, percorrida a pé durante décadas. Nunca abusou à mesa, nunca frequentou hospitais, e insiste em um ponto: sempre foi sociável. Como se a saúde também passasse pela relação com o outro.
E talvez seja exatamente isso.
Porque, em Osini, a explicação não está apenas na dieta mediterrânea, no ar puro ou na genética. Está na estrutura social. Em uma prática antiga chamada “s’aggiudu torrau”, o “ajuda devolvida”: eu ajudo você hoje porque sei que amanhã você ajudará a mim. Não é solidariedade abstrata. É um sistema de sobrevivência coletiva.
A história do vilarejo também ajuda a entender essa coesão.
Em 1951, uma enchente devastou parte do antigo núcleo urbano, construído ao pé das rochas do Taccu. A comunidade foi deslocada para uma nova área, cerca de um quilômetro acima. Durante décadas, o antigo Osini permaneceu abandonado, como uma ferida aberta. Hoje, a administração local promove sua recuperação, restaurando casas e memória. Não é apenas urbanismo: é reconstrução identitária.
Paralelamente, iniciativas culturais reforçam esse vínculo com o tempo e com os mais velhos. Um museu da memória está sendo criado, murais retratarão os centenários históricos, e o município foi oficialmente reconhecido como área da Blue Zone um reconhecimento que, segundo os estudos do professor Giovanni Mario Pes, confirma que essas zonas não são fixas, mas evoluem ao longo do tempo.
Em um mundo que fragmenta, Osini continua a unir.
Aqui, envelhecer não significa desaparecer. Significa se tornar referência.
E talvez o verdadeiro segredo não esteja em viver mais anos. Mas em nunca deixar de pertencer.

