O sonho da casa em Toscana virou pesadelo para brasileiros. Dezenas acumulam dívidas e processos

O sonho de comprar uma casa na Toscana por um preço acessível e reformá-la praticamente sem gastar nada parecia irresistível. A promessa era simples: graças ao Superbonus, o incentivo bilionário criado pelo governo italiano para recuperar imóveis históricos, as obras seriam financiadas pelo Estado. Mas, para dezenas de brasileiros, o projeto acabou se transformando em um pesadelo feito de cobranças inesperadas, reformas que nunca terminaram, imóveis abandonados e prejuízos que, em alguns casos, chegam a centenas de milhares de euros.

É o retrato revelado por uma investigação do portal UOL, que ouviu compradores no Brasil, na Europa e na Ásia, analisou contratos, documentos e mensagens, além de percorrer os pequenos vilarejos da Toscana onde os empreendimentos deveriam ter sido concluídos. A apuração também mostra que o caso está sob investigação da Procuradoria de Lucca e já foi alvo de buscas da Guardia di Finanza, a polícia financeira italiana.

No centro da história está a empresa Sonho.it, criada pelo brasileiro Douglas Roque e pelo arquiteto italiano Alberto Da Lio. A proposta atraía principalmente brasileiros interessados em viver na Itália ou investir em imóveis históricos. Os clientes compravam antigas casas de pedra em pequenos municípios da Toscana e assinavam contratos para que a própria empresa administrasse toda a reforma utilizando os créditos do Superbonus, programa criado após a pandemia para impulsionar a recuperação do patrimônio imobiliário italiano.

Durante alguns anos, o incentivo chegou a cobrir até 110% do valor das obras e movimentou bilhões de euros, revitalizando milhares de edifícios em todo o país. Ao mesmo tempo, porém, também se tornou alvo de fraudes, mudanças nas regras e investigações fiscais, criando um cenário de grande insegurança para empresas e proprietários.

Segundo a investigação do UOL, muitos compradores afirmam que, depois da aquisição dos imóveis, começaram a receber sucessivas cobranças adicionais que não faziam parte do plano inicial. Enquanto os pagamentos aumentavam, as obras atrasavam, eram interrompidas ou simplesmente nunca começavam. Em diversos casos, os imóveis permanecem até hoje cercados por andaimes, com intervenções inacabadas ou completamente abandonados.

Há relatos de brasileiros que investiram a aposentadoria, venderam imóveis no Brasil ou utilizaram praticamente todas as economias da família para financiar o projeto. Alguns estimam perdas de centenas de milhares de euros e dizem que ainda enfrentam processos, dívidas e disputas judiciais.

A reportagem mostra ainda que diversos clientes passaram a exigir documentos que comprovassem a utilização dos créditos fiscais e o andamento das obras. Em alguns casos, decidiram revogar procurações concedidas à empresa, enquanto outros relatam terem sofrido pressões e ameaças de ações judiciais ao questionarem a condução dos empreendimentos.

Para entender a dimensão do problema, as jornalistas do UOL viajaram até a província de Lucca, onde encontraram propriedades ainda abandonadas, canteiros de obras paralisados e moradores que acompanharam de perto o drama de famílias estrangeiras.

O prefeito de Fabbriche di Vergemoli, Michele Giannini, afirmou à reportagem que viu pessoas chegarem à cidade chorando depois de perder praticamente tudo o que haviam investido. Segundo ele, algumas famílias venderam bens no país de origem acreditando que começariam uma nova vida na Toscana.

Procurada pelo UOL, a Sonho.it informou que a paralisação dos projetos decorre da crise enfrentada pelo setor da construção após as mudanças nas regras do Superbonus e afirmou permanecer à disposição das autoridades italianas para prestar esclarecimentos.

O caso lança uma sombra sobre um dos programas mais conhecidos da Itália para revitalização de imóveis históricos. Nos últimos anos, milhares de estrangeiros — entre eles muitos brasileiros e descendentes de italianos — foram atraídos pela possibilidade de comprar casas em pequenas cidades e reconstruir uma vida no interior italiano. Para parte desses compradores, porém, o sonho da Toscana acabou dando lugar a um longo e caro processo para tentar recuperar o investimento.

POSICIONAMENTO OFICIAL

A Sonho.it esclarece que não é alvo da investigação conduzida pelo Ministério Público de Lucca, na Itália. A empresa atua exclusivamente na comercialização de imóveis, sendo os projetos técnicos e a execução das obras de responsabilidade da Mole Aquae Architettura, que apresentou às autoridades italianas toda a documentação e os esclarecimentos solicitados.

Todos os negócios foram realizados por meio de contratos regularmente firmados entre as partes, em conformidade com a legislação italiana e com as regras do programa Superbonus. Durante sua vigência, o programa passou por sucessivas alterações legislativas, incluindo restrições à cessão de créditos, que impactaram projetos em toda a Itália.

As obras não estão embargadas e podem ser retomadas pelos proprietários com recursos próprios, conforme previsto contratualmente.

A Sonho.it reforça que nunca comercializou imóveis conhecidos como “casas de 1 euro”. Todos os projetos contavam com as autorizações exigidas pelas autoridades italianas, e as obrigações e responsabilidades dos proprietários, inclusive as de natureza tributária, sempre estiveram expressamente previstas em contrato.

A empresa esclarece ainda que, dos 10 milhões de euros inicialmente bloqueados pela Justiça italiana, 6 milhões já foram liberados. A expectativa é de que os 4 milhões de euros remanescentes também sejam desbloqueados após a conclusão das análises em andamento.

A Sonho.it e a Mole Aquae Architettura seguem operando normalmente, prestando suporte aos clientes e colaborando integralmente com as autoridades italianas para o pleno esclarecimento dos fatos.

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