A chamada fuga de cérebros voltou ao centro do debate na Itália. O fenômeno, conhecido em vários países, ocorre quando jovens qualificados, pesquisadores, profissionais especializados e recém-formados deixam seu país de origem em busca de salários mais altos, melhores oportunidades de carreira e condições de vida mais atrativas no exterior.
Segundo dados citados pelo jornal italiano Corriere della Sera, mais de 630 mil jovens entre 18 e 34 anos emigraram da Itália entre 2011 e 2024. Apenas no último ano, cerca de 78 mil deixaram o país. O tema ganhou ainda mais relevância porque não afeta apenas regiões historicamente mais frágeis do sul italiano. Em números absolutos, Lombardia e Vêneto, dois dos motores econômicos do país, também registram perdas significativas de jovens talentos.
Diante desse cenário, uma proposta apresentada pelo Partido Democrático (PD) no Parlamento italiano busca criar uma série de incentivos para tornar o país mais atraente para as novas gerações e reduzir o fluxo migratório de profissionais qualificados.
Uma das medidas que mais chamou atenção prevê um complemento salarial de 200 euros por mês para trabalhadores com menos de 35 anos contratados em regime estável. O benefício poderia ser recebido durante os três primeiros anos do contrato e seria destinado a profissionais com renda anual de até 45 mil euros.
O projeto vai além da questão salarial. Entre as propostas estão incentivos para o empreendedorismo jovem, apoio à criação de startups inovadoras em áreas periféricas do país e estímulos para empresas que adotem modelos de trabalho remoto capazes de gerar oportunidades fora dos grandes centros urbanos.
A habitação, um dos maiores desafios para os jovens europeus, também ocupa espaço importante no pacote. O texto prevê benefícios para aluguel, reforço dos fundos de garantia para aquisição da primeira moradia e facilidades de acesso ao crédito para menores de 36 anos.
Outro eixo estratégico é a educação. A proposta prevê o fortalecimento das bolsas de pesquisa e doutorado, especialmente nas universidades do sul da Itália, região que há décadas enfrenta dificuldades para reter estudantes e pesquisadores.
O plano inclui ainda a criação de uma plataforma digital chamada Scelgo l’Italia (“Escolho a Itália”), destinada a facilitar o retorno de italianos residentes no exterior. O portal reuniria informações sobre trabalho, pesquisa, impostos, saúde e oportunidades profissionais para quem deseja reconstruir a carreira no país.
O debate ocorre em um momento delicado para a demografia italiana. Com uma das populações mais envelhecidas da Europa e taxas de natalidade em mínimos históricos, a saída constante de jovens qualificados é vista por muitos analistas como um desafio estratégico para o crescimento econômico e a competitividade do país nas próximas décadas.
A proposta ainda precisará passar pelo processo legislativo e poderá sofrer alterações durante a tramitação. Independentemente de seu futuro político, ela recoloca em evidência uma questão que preocupa governos, universidades e empresas: como convencer uma nova geração de italianos a construir seu futuro dentro do próprio país.
Fuga de cérebros preocupa a Itália que debate sobre novos incentivos

