Os italianos são reconhecidos e famosos no mundo por diversos motivos. Existem estereótipos, verdades e fatos que nos representam. Muitos dizem que os italianos se vestem bem, têm bom gosto e sabem cozinhar, mas você sabe o que realmente torna os italianos únicos, o que torna único o estilo da dolce vita italiana? Vou contar hoje.
Aperitivo
Uma parte da nossa vida, especialmente após o fim da jornada de trabalho, é o aperitivo.
Nos últimos anos, esse ritual se espalhou por muitas culturas, inclusive aqui no Brasil. Mas tudo nasce de uma tradição tipicamente italiana. O conceito de se encontrar, desligar-se do mundo e do estresse do trabalho, esquecer por alguns momentos os problemas do dia a dia e estar na companhia de colegas e amigos.
Beber e comer juntos, criando um momento de leveza e descontração. O próprio Spritz, o coquetel símbolo do Vêneto, tornou-se o rei do aperitivo.
Sentar-se em frente a um bar, em uma praça, pedir um Spritz e alguns petiscos, tudo acompanhado por histórias e risadas entre amigos.
Estar em boa companhia, frequentar diariamente o mesmo bar, ter um ponto de encontro para conversar sobre os acontecimentos do dia: foi assim que nasceu o aperitivo.
Nas décadas de 1950 e 1960 era comum beber um Negroni ou um Americano; com o passar do tempo eles foram substituídos por coquetéis mais elaborados. Os petiscos, pequenos antepastos, sanduíches e batatas ainda existem, mas foram dando cada vez mais espaço ao apericena, verdadeiros jantares em estilo buffet.
Normalmente começam às 18h30: pede-se um coquetel e, incluído no preço, existe a possibilidade de comer livremente os pratos disponíveis.
Os próprios turistas, quando chegam à Itália, acabam se deixando levar por essa forma de viver o dia. Na Itália, tanto no passado quanto atualmente, a vida acontece muito nas ruas. Utiliza-se menos o automóvel em comparação com muitos outros países e quase tudo está ao alcance das mãos. Isso contribuiu para criar um estilo de vida único.
Uma pequena caminhada após o trabalho, uma parada no bar, um aperitivo, alguns petiscos e depois o retorno para casa para o jantar. Na Itália normalmente se janta às 20h, enquanto nos Estados Unidos muitas pessoas jantam às 17h. Dessa diferença também nasceu a cultura do aperitivo.
Pão e scarpetta
Dirijo-me aos descendentes de italianos aqui no Brasil. Quantas vezes vocês observaram seus bisavós ou avós usando pão para aproveitar o molho que restou no prato? Pois bem, esse é um costume tipicamente italiano: a scarpetta.
Utilizar os últimos pedaços de pão para recolher o molho de tomate é uma tradição que surgiu em tempos passados para evitar desperdícios, especialmente nos períodos de fome e pobreza.
Mas de onde vem o nome “scarpetta”?
A resposta é dada pela Accademia della Crusca e pela Enciclopédia Treccani. O pedaço de pão, pressionado pelos dedos dentro do prato, assume uma forma que lembra vagamente um sapato. Além disso, o pão deslizando sobre o molho lembra o movimento de um sapato caminhando e recolhendo a sujeira da estrada.
Existe também uma origem dialetal ligada aos termos sicilianos e napolitanos “scarsetta”, associados ao conceito de escassez e privação em tempos difíceis. Essa prática era particularmente difundida entre as classes sociais menos favorecidas. As regras de etiqueta, de fato, não aprovam esse comportamento. No máximo, tolera-se o uso do garfo espetado no pão para realizar o gesto.
Café expresso no balcão
Como mencionado anteriormente, a vida italiana é vivida muito a pé. Uma cena tipicamente italiana que você poderá observar em nosso país é a de pessoas entrando em um bar, pedindo um expresso, tomando o café, pagando e indo embora.
Muitos, durante esse pequeno ritual diário, conversam com o barista ou com o proprietário do estabelecimento. Fala-se de futebol, política, problemas familiares. Bastam alguns minutos para rir, brincar e desabafar. Inclusive, como já contei aqui no Jornal Italia, no sul da Itália existe o costume do café suspenso: deixar um café já pago para quem chegar depois.
O motivo? Muitos frequentadores do mesmo bar se conhecem e frequentemente aquele café oferecido acaba indo para um amigo ou conhecido.
Em muitos outros países essa cultura não existe. A interação social é muito mais limitada.
Além disso, muitos italianos recebem compras online diretamente no bar do bairro. Eu mesmo fazia isso. Dessa forma existe a certeza de que alguém receberá o pacote e, ao buscá-lo, aproveita-se para tomar um café e agradecer.
Comprar no mercado
Em todas as cidades italianas existem mercados centrais ou mercados de bairro.
Muitas pessoas ainda preferem fazer compras nos mercados ao ar livre em vez das grandes redes de supermercados. Cria-se uma relação humana com feirantes, vendedores de frutas e verduras, açougueiros e peixeiros.
Minha mãe, que vive no centro histórico de Florença, ainda hoje pega a bicicleta ou vai até o Mercado de Sant’Ambrogio. Segundo ela, é um dos poucos lugares onde ainda é possível encontrar produtos de qualidade autêntica.
Prefere-se manter uma relação pessoal com o vendedor, que muitas vezes já conhece os gostos e as preferências dos clientes.
Muitos comerciantes separam produtos para clientes habituais e não são raros pequenos descontos ou gentilezas reservadas aos mais fiéis.
Almoçar na trattoria
As trattorias são estabelecimentos informais, frequentemente administrados por famílias e profundamente enraizados na tradição italiana.
Oferecem comida caseira e pratos típicos regionais, proporcionando uma experiência acolhedora, porções generosas e preços acessíveis.
O termo deriva do verbo francês “traiter”, que significa preparar.
Os italianos, especialmente no passado, tinham oficinas e escritórios nos centros das cidades. Voltar para casa durante o horário de almoço nem sempre era conveniente. Assim, as trattorias acabaram substituindo o almoço doméstico e se transformaram em uma segunda casa.
Ali nasciam amizades verdadeiras e eram construídos laços destinados a durar uma vida inteira. Como no caso do meu grande amigo Giancarlo Vestri, ferreiro da Via del Porcellana, em Florença. Um mestre artesão com mais de cinquenta anos de atividade.
Todos os dias o bom e velho Giancarlo caminhava poucos metros desde sua oficina para almoçar na Trattoria Sostanza. Todos os dias, de segunda a sexta-feira.
Uma massa, um segundo prato, um quarto de litro de vinho e uma garrafa de água.
Ainda guardo comigo uma foto dele, sentado à sua mesa.
Durante cinquenta anos sentou-se na mesma mesa, junto à parede, cercado por fotografias, lembranças e rostos famosos.
Giancarlo Vestri nos deixou em 19 de novembro de 2019 mas sua mesa continua lá.
E sempre será dele.
É isso que nos torna italianos, únicos.

