Nascido em 1971, em Borello, distrito da província de Cesena, no coração da Emilia-Romagna, Pietro Tombaccini chega ao Brasil trazendo na bagagem uma longa carreira diplomática construída em diferentes continentes. Ao longo de mais de duas décadas de atuação, representou a Itália na África, Europa, Oriente Médio e América do Sul, desempenhando funções ligadas à cooperação bilateral e às relações internacionais.
Agora, assume o cargo de cônsul-geral da Itália em Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais.
Sua jurisdição abrange um território de aproximadamente 586 mil quilômetros quadrados, com mais de 21 milhões de habitantes, dos quais cerca de 60 mil são de origem italiana, uma das comunidades mais importantes do país.
A família Tombaccini é bastante conhecida na Emilia-Romagna. Pietro é filho dos proprietários do tradicional Mobilificio Tombaccini, empresa fundada por seu bisavô, de quem herdou também o nome.
Antes da carreira diplomática, porém, o esporte ocupou um lugar importante em sua vida. Pietro Tombaccini foi jogador profissional de futebol, vestiu a camisa da Seleção Italiana Sub-16 e sempre manteve uma forte ligação com o Cesena Calcio, clube que disputou diversas temporadas na Serie A e atualmente joga a Serie B italiana.
Para o novo cônsul, chegar ao Brasil representa o encerramento de um ciclo iniciado ainda na infância. Ao recordar esse momento, conta que, quando começou a descobrir o prazer da leitura, passou a acompanhar mensalmente o famoso quadrinho italiano Mister No, ambientado na Amazônia.
A história narrava as aventuras de um piloto americano que, após a guerra, se estabeleceu em Manaus, onde sobrevivia conduzindo um pequeno avião utilizado para transportar turistas pela floresta amazônica. A cada edição, Tombaccini descobria novas histórias, personagens e paisagens brasileiras. Décadas depois, o destino o trouxe justamente ao país que tanto despertou sua imaginação durante a infância.
Entre os objetos pessoais que trouxe para o Brasil durante sua missão diplomática está justamente sua coleção de Mister No, que pretende reler agora vivendo de perto os cenários retratados nas histórias.
Até os 18 anos, sua vida esteve praticamente dedicada ao futebol. Após concluir o ensino médio, ingressou na Faculdade de Economia e Comércio da Universidade de Bolonha. Foi justamente durante esse período que participou do programa Erasmus, estudando na Irlanda, experiência que, segundo ele, ampliou seus horizontes e despertou definitivamente seu interesse pelo cenário internacional.
Mais tarde, enquanto trabalhava na Euronews, na França, conheceu uma estagiária que comentou que seu namorado havia acabado de ser aprovado no concurso para a carreira diplomática italiana. Foi naquele momento que surgiu a inspiração. Tombaccini compreendeu que aquele também poderia ser o seu caminho.
De volta à Itália, no início dos anos 2000, foi aprovado no concorrido concurso do Ministério das Relações Exteriores, ingressando oficialmente na Farnesina, onde iniciou sua trajetória diplomática.
São 25 anos representando a Itália ao redor do mundo.
Na África encontrou também o amor, casando-se com Florinda. Viveu realidades profundamente distintas entre a África Subsaariana, em Uganda, e o norte africano, no Egito, experiências que lhe proporcionaram uma visão ampla sobre culturas, tradições e formas de viver completamente diferentes entre si.
Seu primeiro posto na América do Sul foi na Argentina, onde exerceu a função de cônsul de primeira classe. Foi também nesse período que nasceu seu primeiro filho, Amedeo.
Cada país, cada cultura e cada missão contribuíram para seu crescimento profissional e humano.
Agora, em Belo Horizonte, assume uma das mais importantes representações consulares da Itália no Brasil.
Minas Gerais é considerado um dos principais polos industriais brasileiros, ficando atrás apenas do estado de São Paulo. A presença italiana na economia mineira é histórica. A chegada da Fiat, há mais de cinquenta anos, marcou profundamente o desenvolvimento industrial da região e consolidou uma forte ligação entre empresários italianos e o estado.
Além disso, mais de 60 mil cidadãos italianos e ítalo-descendentes vivem atualmente em Minas Gerais, fortalecendo ainda mais os laços entre os dois países.
Com a conclusão do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, a expectativa é de que Brasil e Itália intensifiquem ainda mais suas relações econômicas e institucionais.
Minas Gerais possui uma sólida tradição empresarial ligada à imigração italiana, realidade que tende a ganhar novo impulso com a ampliação das oportunidades comerciais entre os dois blocos.
Outro elo importante entre Cesena e Belo Horizonte leva o nome de Gianfranco Zavalloni, educador italiano criador do conhecido “Método da Lesma”, uma proposta pedagógica baseada no respeito ao ritmo natural da infância, na escuta e na valorização do tempo de aprender, em contraposição à pressa da sociedade contemporânea.
Durante cinco anos, Zavalloni dirigiu a mais antiga escola italiana no exterior, fundada pela própria Fiat em Belo Horizonte.
O tradicional instituto ítalo-brasileiro atende atualmente cerca de 1.500 alunos e continua formando gerações que ocupam posições de destaque na sociedade mineira.
A ligação entre Cesena e Minas Gerais também passa pela imigração de numerosos trabalhadores vindos de Formignano, distrito da província de Cesena, que chegaram ao estado brasileiro para trabalhar principalmente nas atividades ligadas à mineração.
Relembrando sua trajetória como jogador de futebol e sua paixão pelo esporte, Pietro Tombaccini declarou:
“Minhas primeiras noites no Brasil tiveram o futebol como companhia. Logo comecei a acompanhar o Campeonato Brasileiro e, apesar das dificuldades recentes vividas pela seleção italiana, é impossível não ficar impressionado com o nível técnico e físico dos jogadores. Chamam a atenção principalmente os fundamentos: domínio de bola, primeiro toque, controle, finalização e a capacidade de driblar. São habilidades trabalhadas desde cedo e que, infelizmente, parecem ter perdido espaço nas categorias de base do futebol italiano.
Em Belo Horizonte existe também um clube que representa um importante capítulo da imigração italiana: o Cruzeiro, equipe onde começou a carreira de Ronaldo, o Fenômeno. Pouca gente sabe que o clube nasceu no início do século XX com o nome de Palestra Itália, fundado pela comunidade italiana da cidade por iniciativa do então cônsul da Itália. Naquela época, apenas italianos podiam vestir sua camisa, cujas cores reproduziam o tricolor italiano.
Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados, todas as referências à Itália foram proibidas. O clube precisou mudar de nome, passando a se chamar Cruzeiro Esporte Clube, e abandonou as cores da bandeira italiana. Em seu lugar foi adotado o azul, uma homenagem que até hoje remete à tradição da seleção italiana.
Não foi por acaso que minha primeira compra ao chegar a Belo Horizonte foi justamente uma camisa do Cruzeiro. A partir de agora pretendo acompanhar o clube também no estádio, vivendo de perto a atmosfera do futebol brasileiro e descobrindo, jogo após jogo, mais um pedaço da alma esportiva deste país.”
No fim das contas, a história de Pietro Tombaccini demonstra que os sonhos costumam encontrar caminhos inesperados. Aquilo que, na infância, era um Brasil imaginado entre as páginas de Mister No, hoje se transformou no país onde ele representará oficialmente a Itália. E, se é verdade que o destino gosta dos pequenos detalhes, não surpreende que sua primeira compra ao chegar a Belo Horizonte tenha sido justamente a camisa do Cruzeiro: um gesto simples que reúne sua paixão pelo futebol, o vínculo com a história da imigração italiana e o início de uma nova aventura que está apenas começando.

