Expedição une Brasil e Itália em missão científica rumo à Antártica

A missão reúne os navios Guppy, comandado pela exploradora holandesa Laura Dekker, e a Nave Santa Maria, sob o comando do explorador italiano Simone Sacco. As embarcações permanecem atracadas na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, no Rio de Janeiro, onde passam pelos últimos preparativos antes de iniciarem a descida pelo litoral brasileiro, seguindo depois para Uruguai, Argentina e Terra do Fogo, ponto de partida rumo à Antártica.
A partir daí, cada navio seguirá um percurso complementar. O Guppy navegará até a Península Antártica, realizando pesquisas e observações ambientais antes de seguir pela Patagônia, Polinésia e Nova Zelândia. Já a Nave Santa Maria cruzará o Atlântico Sul passando pelas Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Tristão da Cunha, encerrando essa etapa na Cidade do Cabo, na África do Sul, para depois iniciar uma nova missão em Madagascar.
Mas a verdadeira essência do projeto vai muito além da navegação. A expedição pretende documentar um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta por meio de levantamentos hidroacústicos, mapeamentos batimétricos em três dimensões, mergulhos científicos, monitoramento da fauna marinha e produção de documentários. Os dados obtidos pelas duas embarcações serão compartilhados e complementados, ampliando o conhecimento sobre regiões ainda pouco estudadas do Atlântico Sul e da Antártica.
A Nave Santa Maria é, por si só, um projeto singular. Operada pela fundação italiana Secutor, ela funciona como navio de pesquisa, escola flutuante e plataforma de produção audiovisual. Restaurada ao longo de quatro anos a partir de um antigo barco pesqueiro construído na Holanda em 1964, tornou-se uma das embarcações à vela tecnologicamente mais avançadas do mundo.
Sistemas de sonar de última geração, drones marítimos, equipamentos de mergulho desenvolvidos especialmente para a missão e laboratórios convivem a bordo com instrumentos tradicionais de navegação, como sextante, radiogoniômetro e até telex, preservando técnicas clássicas da vida no mar.
Outro aspecto que diferencia a iniciativa é sua dimensão humana. Simone Sacco criou o projeto com a ideia de formar pessoas antes mesmo de formar marinheiros. Jovens entre 16 e 35 anos, vindos dos mais diferentes contextos sociais e profissionais, são selecionados para viver meses embarcados aprendendo navegação, disciplina, trabalho em equipe e ciência. Muitos nunca haviam pisado em um navio. Há ex-motoristas de ônibus, tatuadores, skatistas e estudantes que, dentro da embarcação, assumem funções técnicas após um intenso processo de treinamento.
O objetivo é oferecer uma alternativa concreta a jovens que buscam novos rumos, longe das drogas, da violência e da dependência das redes sociais, transformando o navio em uma verdadeira comunidade baseada na responsabilidade, na cooperação e no aprendizado coletivo.
O Guppy segue uma filosofia semelhante, voltada principalmente para adolescentes. A bordo, os participantes aprendem técnicas tradicionais de navegação oceânica, convivem diretamente com cientistas e mergulhadores e descobrem, na prática, a importância da conservação dos oceanos. Durante a viagem, escolas de diversos países acompanharão parte da expedição por transmissões ao vivo, aproximando estudantes de um ambiente que poucas pessoas terão a oportunidade de conhecer pessoalmente.
O Brasil também ocupa um papel estratégico na missão. Além de servir como última grande base logística antes da travessia rumo ao extremo sul do continente, a expedição conta com o apoio da Marinha do Brasil, que fornece suporte técnico e operacional durante a permanência das embarcações no Rio de Janeiro.
A cooperação se estende ainda ao Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), parceiro em pesquisas sobre mamíferos marinhos e coleta de DNA de baleias com auxílio de drones, além do compartilhamento de dados oceanográficos e batimétricos obtidos durante as expedições.
O projeto também é movido por uma visão compartilhada pelos comandantes Laura Dekker e Simone Sacco. Mais do que alcançar destinos remotos, a proposta é usar a navegação como instrumento de crescimento humano, incentivando novas gerações a ultrapassar fronteiras, descobrir o mundo com os próprios olhos e desenvolver uma relação mais profunda com o oceano.
A tripulação é apresentada como uma grande família internacional, unida pelo desejo de explorar, aprender e transmitir essas experiências, mostrando que o mar continua sendo um elo capaz de aproximar pessoas de diferentes culturas e inspirar adultos e crianças a sonhar com novas aventuras.
Toda a jornada será registrada em documentários e produções audiovisuais voltadas ao público internacional. Mais do que contar a história de uma expedição científica, o projeto pretende despertar o interesse pela pesquisa, pela preservação dos oceanos e pelo espírito da exploração responsável.
Em um mundo cada vez mais conectado, mas também repleto de novas fronteiras, a missão aposta na ciência, na educação e na cooperação internacional para mostrar que ainda existem lugares capazes de ampliar o conhecimento humano e inspirar novas gerações de exploradores.
