Do EUR de Roma a Brasília: duas cidades concebidas para representar o futuro

Um oceano, culturas distintas e mais de vinte anos de história separam Roma de Brasília. No entanto, ao caminhar pelas amplas avenidas do bairro EUR e contemplar o horizonte monumental da capital brasileira, surge uma surpreendente sensação de familiaridade. É como se as duas cidades falassem idiomas diferentes, mas compartilhassem a mesma ambição: transformar a arquitetura na representação visível do futuro.

O EUR começou a tomar forma no final da década de 1930 como palco da Exposição Universal prevista para Roma em 1942. O evento nunca aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, mas o bairro sobreviveu ao seu propósito inicial e foi concluído e ampliado nas décadas seguintes. Brasília, por sua vez, nasceu do desejo de levar a capital do Brasil para o coração do país. Construída a partir de 1956 e inaugurada em 21 de abril de 1960, foi concebida a partir do plano urbanístico de Lúcio Costa e das extraordinárias arquiteturas de Oscar Niemeyer. Em ambos os casos, tratou-se de cidades idealizadas primeiro no papel e depois transformadas em grandes manifestos urbanos do século XX.

No EUR, o visitante encontra uma Roma diferente daquela dos becos históricos, das praças barrocas e das ruínas da Antiguidade. O espaço se abre diante dos olhos. As avenidas tornam-se largas, os edifícios se afastam entre si e as perspectivas parecem prolongar-se até o horizonte. O travertino reveste fachadas sólidas e luminosas, enquanto arcos, colunas e simetrias reinterpretam a herança da Roma Antiga através da linguagem da arquitetura moderna.

O Palazzo della Civiltà Italiana domina essa paisagem como um monumento clássico reinventado para o século XX. A repetição geométrica dos seus arcos, a imponência do volume e a pureza do mármore conferem ao edifício uma presença quase atemporal. Ao redor, praças, jardins e grandes eixos viários compõem um cenário urbano onde a monumentalidade prevalece sobre a escala humana.

Em Brasília, a sensação é semelhante, mas a linguagem arquitetônica muda completamente. Também ali os espaços se expandem, os edifícios públicos aparecem isolados e as grandes perspectivas tornam-se protagonistas da experiência urbana. O Eixo Monumental atravessa a cidade como uma espinha dorsal, enquanto a Esplanada dos Ministérios conduz o olhar até o Congresso Nacional e a Praça dos Três Poderes.

Se o EUR dialoga permanentemente com a monumentalidade da Roma clássica, Brasília rompe deliberadamente com qualquer referência histórica. As formas criadas por Oscar Niemeyer não reproduzem templos nem colunas: inventam curvas, rampas, cúpulas e estruturas brancas que parecem desafiar a gravidade. No Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e na Catedral Metropolitana, o concreto perde seu peso e transforma-se em escultura. O plano urbanístico de Lúcio Costa organiza os setores administrativos, residenciais e culturais em um desenho unitário, pensado para simbolizar um novo Brasil voltado ao futuro.

EUR e Brasília compartilham, sobretudo, o fascínio pela grande escala. Não são cidades construídas a partir da rua tradicional ou da ocupação espontânea. São espaços organizados por grandes eixos, amplas áreas verdes, praças monumentais e edifícios concebidos como protagonistas da paisagem. A arquitetura deixa de ser apenas cenário para tornar-se mensagem.

Também a mobilidade ocupa um papel central. As largas avenidas do EUR revelam a visão de uma Roma moderna, preparada para o automóvel e conectada ao seu desenvolvimento urbano. Em Brasília, esse conceito alcança sua expressão máxima: as grandes distâncias e a separação entre as diferentes funções urbanas transformam o carro no principal meio de deslocamento. Uma solução inovadora para a época, mas que hoje desperta reflexões sobre a necessidade de cidades mais caminháveis e humanas.

Apesar das semelhanças, as diferenças são profundas. O EUR representa uma modernidade que continua dialogando com a tradição. Utiliza o travertino, recupera o arco romano e busca uma monumentalidade sólida, austera e permanente. Brasília, ao contrário, expressa uma modernidade mais livre e experimental, onde a curva de Niemeyer rompe a rigidez do plano urbano e introduz leveza, movimento e poesia.

As duas cidades também refletem momentos políticos distintos. O EUR foi concebido durante o período fascista como vitrine monumental da Itália moderna e sede da Exposição Universal de 1942. Brasília nasceu durante o governo de Juscelino Kubitschek como símbolo de desenvolvimento, integração nacional e confiança no futuro. Objetivos diferentes, mas uma mesma convicção: a de que a arquitetura poderia representar o projeto de uma nação.

Observadas hoje, EUR e Brasília parecem duas interpretações de um mesmo sonho do século XX: a crença de que era possível planejar não apenas edifícios, mas uma nova forma de viver. Uma encontra inspiração na memória da Roma Antiga; a outra celebra a liberdade criativa do Modernismo brasileiro.

Entre os arcos de travertino do EUR e as curvas elegantes de Brasília permanece, até hoje, um diálogo silencioso entre Itália e Brasil. Um diálogo feito de concreto, luz e espaços monumentais que continua inspirando arquitetos, urbanistas e apaixonados por design em todo o mundo.

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