Crise da moradia na Itália: menos aluguel longo e mais imóveis temporários

Encontrar uma casa para morar por um período longo está ficando mais difícil em várias cidades italianas. O problema não se resume ao crescimento dos aluguéis de temporada: nos últimos anos, uma parcela cada vez maior dos imóveis disponíveis passou a ser destinada a contratos temporários, ao turismo ou a outras formas de ocupação de curta duração.

Uma análise do portal imobiliário Idealista citada pelo Corriere della Sera mostra uma mudança significativa entre 2016 e 2026. Nesse período, a quantidade total de anúncios de imóveis para aluguel na Itália permaneceu praticamente estável. O que mudou foi o tipo de contrato oferecido: a oferta de aluguéis de longo prazo caiu 34,8%, enquanto os imóveis destinados a contratos temporários, de um a 18 meses, passaram de apenas 1,6% para 31,4% dos anúncios.

Na prática, isso significa que não necessariamente existem muito menos imóveis para alugar. Há, porém, menos casas disponíveis para quem procura uma residência estável.

O mercado temporário também se tornou mais caro. Segundo os dados do Idealista apresentados pelo jornal, o aluguel médio anunciado para contratos temporários chegou a 21,60 euros por metro quadrado por mês, contra 14,50 euros nos contratos tradicionais de longo prazo. Em 2016, a diferença era muito menor: 9,90 euros contra 8,80 euros por metro quadrado.

Por trás dessa transformação está também o crescimento das plataformas digitais e da gestão profissional de imóveis. Alugar uma propriedade por alguns meses ou para turistas ficou mais simples e, em determinadas localidades, mais rentável. O fenômeno deixou de ser apenas uma atividade ocasional de pequenos proprietários e passou a incluir empresas que administram vários apartamentos e utilizam ferramentas para ajustar rapidamente os preços conforme a procura.

O turismo é outro componente importante. Cidades históricas e destinos de praia passaram a receber volumes elevados de visitantes, aumentando a disputa pelos imóveis disponíveis. O problema não atinge apenas lugares mundialmente conhecidos como Veneza ou Roma. Em Lecce, por exemplo, o número de anúncios de aluguel de curta duração passou de pouco mais de 100 em 2012 para mais de 2.200 em 2024, segundo pesquisa citada pelo Corriere.

O resultado pode afetar também o funcionamento das próprias cidades. Quando os imóveis ficam caros demais para quem vive e trabalha nelas, profissionais como professores, enfermeiros, motoristas e outros trabalhadores têm mais dificuldade para encontrar moradia perto do emprego.

A União Europeia passou a tratar o problema de forma mais direta. Em 9 de setembro, a Comissão Europeia apresentou o projeto do Affordable Housing Act, que cria uma metodologia comum para identificar regiões sob pressão habitacional e estabelece condições para que autoridades locais possam adotar medidas direcionadas, inclusive sobre aluguéis de curta duração.

A proposta não determina que cidades europeias simplesmente proíbam os aluguéis turísticos. Para restringi-los, as autoridades deverão demonstrar que eles contribuem de maneira significativa para problemas locais de disponibilidade ou preços de moradia e que as medidas adotadas sejam proporcionais.

A dimensão do problema é continental. Entre 2013 e 2024, os preços das casas na União Europeia aumentaram quase 60%, enquanto os aluguéis subiram cerca de 20%. A Comissão também calcula que os aluguéis de curta duração cresceram aproximadamente 93% entre 2018 e 2024.

Na Itália, a própria Comissão Europeia aponta a combinação de estoque limitado de habitação social, imóveis desocupados e forte presença de aluguéis de curta duração como fatores que complicam o acesso à moradia em algumas áreas. Em cerca de um décimo das províncias italianas, os custos de aluguel já representam mais de um terço do salário médio.

A questão, portanto, vai além do preço de um apartamento. A transformação do mercado imobiliário está alterando a própria composição das cidades: imóveis que antes eram destinados principalmente a moradores passam a competir com usos temporários e turísticos. Para quem precisa de uma casa para viver, o problema não é apenas quanto custa alugar, mas cada vez mais se ainda existe uma casa disponível para alugar por longo prazo.


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