Operação Eredità, oito presos no Brasil por tráfico de cocaína ligado à Itália

Oito pessoas foram presas no Brasil em uma operação conjunta entre a Polícia Federal brasileira e os Carabinieri do ROS de Turim contra uma rede suspeita de participar de um esquema internacional de tráfico de cocaína entre a América do Sul e a Europa. A operação, batizada de Eredità, também cumpriu cinco mandados de busca e apreensão e atingiu cidades de São Paulo e Santa Catarina.

Entre os presos está Paula Simões, mulher de Patrick Assisi, integrante da família investigada pela Justiça italiana por sua atuação no narcotráfico internacional. As medidas foram realizadas em Palhoça, em Santa Catarina, e em São Paulo, São Caetano do Sul, Santos e Americana, segundo as autoridades italianas. A investigação é coordenada pela Procuradoria de Turim, por meio da Direção Distrital Antimáfia, com a participação da Direção Nacional Antimáfia e Antiterrorismo da Itália.

A apuração sustenta que os oito investigados fariam parte de uma estrutura criminosa transnacional formada por pessoas ligadas à criminalidade organizada italiana e integrantes de organizações criminosas brasileiras. O grupo teria mantido no Brasil uma operação destinada à aquisição, armazenamento e preparação de grandes carregamentos de cocaína para posterior envio à Europa.

Um dos principais pontos identificados pelos investigadores é o porto de Paranaguá, no Paraná, utilizado como rota para o transporte marítimo dos carregamentos. As remessas tinham diferentes destinos europeus, entre eles a Itália. A investigação relaciona a estrutura a pelo menos 11 apreensões realizadas entre 2019 e 2020, que totalizaram mais de 4,6 toneladas de cocaína.

A investigação ganhou força a partir de uma questão central: o que aconteceu com a estrutura montada pelos Assisi depois das prisões realizadas no Brasil em 2019. Nicola Assisi e seu filho Patrick foram presos naquele ano em Praia Grande, no litoral de São Paulo, em uma operação da Polícia Federal brasileira realizada com a colaboração das autoridades italianas. Nicola era investigado como um importante intermediário do tráfico internacional de cocaína ligado à ‘Ndrangheta no Piemonte.

Segundo a reconstrução apresentada pelos investigadores, as prisões não teriam encerrado a operação no território brasileiro. Familiares e pessoas de confiança dos dois teriam assumido funções anteriormente desempenhadas pelos integrantes presos, preservando contatos com fornecedores, operadores logísticos e responsáveis pela movimentação financeira dos carregamentos.

Um dos episódios considerados mais relevantes ocorreu justamente em 2019. No momento da prisão de Nicola e Patrick Assisi, aproximadamente 2,2 toneladas de cocaína ainda estavam em território brasileiro. Segundo os investigadores, essa carga teria posteriormente sido recuperada e movimentada pela estrutura que assumiu as atividades depois das prisões.

A investigação também aponta para uma organização que não atuaria apenas no transporte da droga. Segundo a reconstrução das autoridades, os envolvidos teriam utilizado diferentes mecanismos para administrar os recursos provenientes do tráfico e manter a operação funcionando entre Brasil e Europa. As apurações mencionam ainda o uso de sistemas de comunicação criptografados e estruturas destinadas a dificultar o rastreamento das operações financeiras.

As cidades atingidas pela operação refletem justamente essa dimensão logística e financeira. Santos, em particular, aparece nas investigações brasileiras como um ponto estratégico para a saída de grandes carregamentos de cocaína por via marítima. A apuração também identificou conexões entre integrantes da estrutura italiana e organizações criminosas brasileiras envolvidas no fornecimento e na logística da droga.

A operação Eredità é resultado de uma investigação que se desenvolveu a partir de outras frentes de cooperação entre as autoridades dos dois países, incluindo as operações Retis, Spiderweb, Samba e Mafiusi. O objetivo é reconstruir a cadeia que liga fornecedores e operadores na América do Sul às organizações responsáveis pela chegada da cocaína aos mercados europeus.

As medidas desta quinta-feira incluem, além das prisões e buscas, providências patrimoniais sobre bens e recursos financeiros relacionados aos investigados. O valor dos ativos eventualmente bloqueados ou apreendidos ainda está sendo apurado.

O nome Eredità, “herança” em italiano, está ligado justamente à hipótese central da investigação: após a prisão dos principais integrantes da família Assisi, a estrutura brasileira do tráfico teria sido assumida por familiares e pessoas próximas, mantendo em funcionamento contatos, rotas e mecanismos utilizados anteriormente para enviar cocaína da América do Sul para a Europa.
As acusações fazem parte de uma investigação em andamento. Os presos são considerados inocentes até eventual condenação definitiva.

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