Violência na infância: Itália e Brasil mostram o tamanho do problema

O dado faz pensar também no Brasil. Não existe uma pesquisa brasileira exatamente igual à italiana, mas os números disponíveis mostram uma realidade semelhante: meninas e adolescentes estão entre as principais vítimas de violência sexual.
A comparação precisa ser feita com cuidado. O estudo italiano entrevistou mulheres adultas sobre experiências ocorridas durante a infância. Já a PeNSE 2024, do IBGE, ouviu adolescentes de 13 a 17 anos. São pesquisas diferentes, mas ajudam a dimensionar o problema nos dois países.
O que acontece na Itália
Segundo o Istat, 8,2% das italianas afirmam ter sofrido algum tipo de violência sexual antes dos 16 anos. Entre as estrangeiras, são 3,4%. Mais de 58% das mulheres que sofreram violência sexual na infância disseram que não contaram a ninguém.
A maior parte dos episódios aconteceu entre os 11 e os 16 anos. E o agressor, na maioria das vezes, não era um desconhecido: 13,5% das italianas e 11,2% das estrangeiras relataram violência física ou sexual cometida por alguém conhecido, incluindo familiares. Entre os desconhecidos, os índices foram de apenas 2,1% e 0,6%, respectivamente.
O levantamento também mostra que a violência pode começar muito cedo. Entre as italianas vítimas de violência sexual na infância, 8,2% disseram que o primeiro episódio aconteceu antes dos seis anos. Outro dado importante é a chamada violência assistida: 10,4% das mulheres afirmam ter presenciado, quando crianças, violência verbal ou física entre os pais ou humilhações contra irmãos.
E no Brasil?
Os dados brasileiros mais recentes disponíveis apontam para uma situação preocupante entre adolescentes. Segundo a PeNSE 2024, do IBGE, 26% das meninas de 13 a 17 anos disseram já ter passado por situações de contato sexual indesejado, como alguém tocar, beijar ou expor partes do corpo contra sua vontade. Entre os meninos, o percentual foi de 10,9%. A pesquisa também mostrou que 11,7% das meninas nessa faixa etária disseram ter sido obrigadas a manter relações sexuais contra a própria vontade.
Os dados brasileiros também indicam que a violência frequentemente acontece em ambientes próximos da vítima. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registrados mais de 67 mil casos de estupro de vulnerável no país. Entre as vítimas de até 13 anos, quase 60% dos autores eram familiares.
Dois países, uma mesma preocupação
Os números não permitem dizer que Itália ou Brasil tenham uma taxa maior de violência infantil, porque as pesquisas utilizam métodos diferentes. Mas existe um ponto em comum bastante claro: a violência sexual contra meninas começa cedo e frequentemente envolve pessoas conhecidas ou próximas da vítima.
Na Itália, o estudo do Istat também encontrou uma relação entre violência sofrida na infância e violência na idade adulta. Entre as italianas, a parcela que sofreu violência física ou sexual depois dos 16 anos passa de 31,9% para 57,2% quando também houve violência durante a infância.
É justamente por isso que os dados vão além de uma fotografia do passado. Eles mostram como a violência na infância pode acompanhar uma mulher durante toda a vida — e como identificar, proteger e ouvir meninas e adolescentes continua sendo uma das formas mais importantes de enfrentar o problema.
