Caros leitores do Jornal Italia,
Chegamos ao capítulo final da minha coluna sobre o meu retorno à Itália e sobre os dois meses que passei na minha cidade, Florença.
Existe uma frase que sempre me acompanha quando viajo para a Itália: “A gente chora duas vezes: quando chega e quando vai embora.” É exatamente isso que sinto toda vez que volto ao meu país.
Além da emoção de reencontrar meus pais, existe algo ainda mais profundo: o vínculo indissolúvel que tenho com a Toscana e com a minha Florença. Uma relação feita de amor e de ódio. O ódio nasce ao ver como piorou aquela cidade que um dia foi chamada de “a sala de visitas da Itália”, aquela pequena joia renascentista que hoje foi transformada em uma espécie de parque temático no estilo Disney.
Ao longo desta coluna contei como me senti deslocado, vendo cada vez mais lojas históricas e pequenas oficinas fecharem as portas, lugares que faziam parte das lembranças da minha infância e da minha adolescência. O centro histórico passou a existir quase exclusivamente para os turistas e cresce cada vez mais aquilo que nós, florentinos, chamamos de “mangificio”, termo usado para definir a enorme quantidade de lanchonetes e estabelecimentos voltados praticamente apenas para comida rápida e para viagem.
Uma Florença que está perdendo, ou talvez já tenha perdido, sua identidade, vendendo-se completamente ao turismo. É esse o sentimento de revolta que carrego comigo e a frustração que, infelizmente, acredito que só aumentará com o passar dos anos.
Por outro lado, existe o amor. O amor pela beleza que Florença continua transmitindo, pela sua força cultural e pelo orgulho de ter nascido naquela que, para mim, continua sendo a cidade mais bonita do mundo.
Os seus maravilhosos pores do sol de verão, com aquele tom rosado refletido nas águas do rio Arno, dominadas pela Ponte Vecchio, fotografada todos os dias por turistas do mundo inteiro. Os passeios de scooter com os amigos pelas colinas florentinas, livres, felizes, sem preocupações nem compromissos.
As noites na Piazza Santa Croce, no início dos anos 2000. Sem redes sociais. As pessoas conversavam, olhavam umas para as outras, viviam o momento. Éramos felizes e não sabíamos. Porque essa é a verdadeira magia de nascer na Europa, na Itália. A vida acontece nas ruas.
Não é preciso carro. Faz-se tudo a pé. Você para, conversa, toma um café, continua caminhando, encontra um amigo. Uma simplicidade extraordinária que, na minha opinião, só a Itália conseguiu proporcionar e que, infelizmente, está desaparecendo aos poucos.
O futuro avança, a sociedade muda, a cultura evolui. Mas continuo sendo um nostálgico e espero que certas coisas nunca mudem.
Encontrei uma cidade mais fria, mais impessoal. O motivo? Como contei nos artigos anteriores, muitos comerciantes fecharam seus estabelecimentos e, junto com eles, está desaparecendo também a convivência entre moradores e comerciantes. Estamos nos americanizando, felizmente apenas em parte. Isso acontece principalmente nos centros históricos. Nos bairros mais afastados ainda existem pedaços da velha Florença e da velha Itália, onde sobrevivem a tranquilidade, o convívio social e o verdadeiro senso de comunidade.
Confesso que, durante esses dois meses em Florença, disse certa vez à minha mãe uma frase que jamais imaginei pronunciar: “Eu não gosto mais de morar em Florença”, uma frase que, alguns anos atrás, eu jamais teria dito.
Muitas pessoas próximas sempre me perguntam se um dia pretendo voltar definitivamente para a Itália. Minha resposta é sim, mas com muitas ressalvas. Hoje eu não voltaria mais para o centro histórico de Florença nem para uma das grandes cidades italianas. Acredito que quem procura tranquilidade, qualidade de vida e segurança encontra a melhor opção no interior da Toscana ou ao longo da costa da região.
É nessas áreas que ainda existe um verdadeiro sentimento de pertencimento, uma gastronomia extraordinária e, principalmente, mais segurança. E justamente a segurança tornou-se, há anos, um dos principais temas do debate público italiano. Cada vez mais comitês de moradores surgem para protestar contra um processo de degradação social que, segundo muitos cidadãos, cresce continuamente.
O aumento da criminalidade, somado aos desafios de integração de parte dos imigrantes, inclusive de segunda e terceira geração, tem contribuído para aumentar a sensação de insegurança entre muitos italianos.
Muitas mulheres têm medo de caminhar sozinhas nas proximidades da estação ferroviária, no centro histórico ou ao sair do trabalho. Situações que há apenas dez anos pareciam impensáveis.
Furtos e roubos tornaram-se frequentes. Atuam diversas quadrilhas organizadas, entre elas grupos do Leste Europeu, cujas mulheres fingem ser turistas para roubar visitantes desavisados. Também é preciso atenção ao sentar-se nas mesas externas dos restaurantes: nunca deixe bolsas penduradas nas cadeiras ou sobre as mesas.
Nesta mesma semana, uma turista brasileira teve cinco mil euros roubados na Piazza della Repubblica e, infelizmente, muitas vezes os responsáveis acabam sendo colocados novamente em liberdade pouco tempo depois.
O overtourism trouxe benefícios econômicos importantes, mas também gerou inúmeros efeitos negativos.
Preços elevados, restaurantes e trattorias mais caros, quadrilhas que diariamente atuam no centro histórico, tráfico de drogas e uma cidade que encontrei muito mais suja. O enorme aumento no número de visitantes também sobrecarrega os serviços de limpeza urbana, que já não conseguem manter as ruas como antigamente. Um dos fatores foi o crescimento dos apartamentos de aluguel por temporada, que ampliaram significativamente a capacidade de hospedagem da cidade e contribuíram para levar o turismo a níveis extremamente difíceis de administrar.
A Prefeitura de Florença aprovou recentemente novas medidas para limitar os apartamentos de aluguel por temporada e reduzir o número de licenças comerciais no centro histórico. A UNESCO, que reconheceu o centro histórico de Florença como Patrimônio Mundial, também continua defendendo medidas para preservar sua identidade e limitar novas transformações.
Veremos se, no futuro, tudo isso trará benefícios concretos e permitirá um renascimento residencial do centro histórico.
Pessoalmente, acredito que será muito difícil.
Minha coluna termina aqui.
Quero agradecer a todos que me acompanharam e leram cada capítulo desta jornada.
Convido vocês a continuarem acompanhando o Jornal Italia, porque novas colunas e muitos outros projetos já estão sendo preparados.
Muito obrigado a todos.
Francesco Sibilla

