Calor extremo na Europa: por que o continente ferve e como os turistas precisam saber para viajar sem imprevistos

Em cidades italianas, o Ministério da Saúde voltou a emitir alertas vermelhos para risco elevado à população, enquanto hospitais registraram aumento dos atendimentos por desidratação, insolação e problemas cardiovasculares. As informações são do jornal italiano Corriere della Sera.
A situação não é isolada. Embora toda a Europa esteja enfrentando temperaturas excepcionais, a Itália está entre os países mais afetados pelo calor extremo, especialmente nas grandes cidades do centro e do norte. Roma, Florença, Bolonha, Milão e outras capitais regionais convivem com dias consecutivos acima dos 35°C e noites tropicais, quando os termômetros não conseguem baixar dos 20°C, dificultando o descanso e aumentando os riscos para idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
Mas o fenômeno vai além de uma simples onda de calor. Os climatologistas afirmam que a Europa está se aquecendo em um ritmo muito superior ao restante do planeta. Dados do programa europeu Copernicus mostram que, desde a década de 1990, a temperatura média global aumentou cerca de 0,27°C por década. No continente europeu, porém, esse crescimento chega a 0,56°C por década, praticamente o dobro da média mundial. Desde a era pré-industrial, a Europa já acumula aproximadamente 2,5°C de aquecimento, tornando-se a região continental que mais rapidamente sofre os efeitos das mudanças climáticas.
Os especialistas apontam três fatores principais para explicar esse comportamento. O primeiro é a redução progressiva da cobertura de neve nos Alpes, nos Pireneus e em outras cadeias montanhosas. Com menos superfícies brancas refletindo a radiação solar, o solo escuro absorve mais calor, acelerando ainda mais o aquecimento.
O segundo fator é a presença cada vez mais frequente do anticiclone africano. Diferentemente do tradicional anticiclone dos Açores, que durante décadas trouxe estabilidade e temperaturas moderadas, a massa de ar quente proveniente do Norte da África tornou-se mais persistente, levando calor intenso para praticamente toda a Europa Ocidental e Central durante vários dias consecutivos.
Existe ainda um terceiro elemento, menos intuitivo, mas igualmente importante. As políticas ambientais adotadas pela União Europeia reduziram significativamente a poluição atmosférica nas últimas décadas. O ar mais limpo trouxe enormes benefícios para a saúde pública, mas também permitiu maior entrada da radiação solar, tornando mais evidente o aquecimento provocado pelas mudanças climáticas.
Para quem pretende visitar a Europa neste verão ou já tem viagem marcada, isso significa adaptar a forma de viajar. Especialistas recomendam evitar caminhadas prolongadas nas horas centrais do dia, quando a sensação térmica pode ultrapassar facilmente os 40°C em algumas cidades italianas. Museus, igrejas e atrações cobertas costumam ser uma alternativa mais confortável durante a tarde, deixando passeios ao ar livre para o início da manhã ou depois do pôr do sol.
Também é aconselhável manter hidratação constante, usar roupas leves, chapéu e protetor solar e acompanhar diariamente os boletins meteorológicos locais. Na Itália, por exemplo, o sistema oficial de alertas utiliza o chamado “bollino rosso”, emitido pelo Ministério da Saúde para indicar risco elevado à saúde mesmo entre pessoas sem doenças prévias. Em dias de alerta máximo, algumas cidades reforçam os serviços de emergência e orientam turistas a reduzirem a exposição ao sol.
Quem viaja de trem ou avião também deve considerar possíveis impactos indiretos. Temperaturas extremas podem provocar atrasos pontuais, exigir adaptações operacionais em aeroportos e afetar a infraestrutura ferroviária, especialmente nos horários de maior calor.
Além dos efeitos sobre a saúde, cresce também o debate sobre o futuro do turismo europeu. Monumentos históricos, museus e centros urbanos enfrentam desafios cada vez maiores para receber milhões de visitantes em verões que se tornam progressivamente mais quentes. Muitas cidades estudam ampliar áreas verdes, criar espaços de sombra e adaptar edifícios históricos a uma realidade climática muito diferente daquela para a qual foram concebidos.
Para os brasileiros que sonham em conhecer a Itália e outras cidades históricas da Europa, talvez seja o momento de repensar o calendário das viagens. Embora junho, julho e agosto continuem sendo os meses mais procurados, eles também concentram as maiores temperaturas, preços mais elevados e o turismo de massa.
Para visitar destinos como Roma, Florença, Veneza, Milão, Bolonha ou Turim com mais tranquilidade, clima agradável e filas menores, o período entre outubro e maio continua sendo, na avaliação de profissionais do setor, a melhor época do ano. Além de proporcionar uma experiência mais confortável, permite descobrir o patrimônio artístico e cultural europeu sem enfrentar os extremos de calor que, ano após ano, se tornam uma nova característica do verão no continente.
