Na Sicília, algumas das melhores histórias da gastronomia não estão apenas nos pratos famosos que ganharam o mundo. Elas também sobrevivem em pequenos endereços, em receitas que quase desapareceram e no trabalho de famílias que transformaram o cotidiano em tradição. É o caso da Cli Ice, em Terrasini, na província de Palermo que há mais de seis décadas, faz parte da paisagem gastronômica da cidade. O que começou como uma pequena sorveteria se transformou em uma operação familiar que reúne gelateria, confeitaria, cafeteria e gastronomia, sem perder de vista o produto que deu origem a tudo: o gelato artesanal.
Hoje, são aproximadamente 48 sabores na vitrine, preparados sem o uso de bases industrializadas ou produtos semiacabados. Mas há outro motivo que torna o endereço especialmente interessante: entre cassatas, granitas e doces tradicionais, a casa preserva preparações que não aparecem com tanta frequência nas vitrines das confeitarias sicilianas. Uma delas tem um nome curioso e uma aparência ainda mais surpreendente: patate, pequenas sobremesas que lembram batatas, mas não levam o tubérculo como protagonista.
Para entender a história da gelateria, é preciso voltar à década de 1960, quando a família Cucinella inaugurou o Bar Italia na praça principal de Terrasini. O estabelecimento é apontado como o primeiro da cidade a vender gelato e, desde então, permaneceu no mesmo endereço, acompanhando as transformações do comércio local.
O negócio passou por diferentes fases e nomes. Primeiro Bar Italia, depois Caffè del Duomo e, por volta dos anos 2000, Cli Ice. A identidade mudou, o espaço cresceu e o cardápio ganhou novas especialidades, mas a ligação com a história da cidade permaneceu.
Marco D’Amore faz parte dessa trajetória desde 1978, quando começou a trabalhar com a produção de gelato. Sua relação com o estabelecimento veio por meio da família Cucinella, da qual também faz parte seu cunhado, um dos responsáveis pelo início da história e que, aos 89 anos, continua frequentando a loja.
A confeitaria ganhou mais espaço a partir de 1980, quando a produção passou a incluir uma variedade maior de sobremesas. Foi o início de uma nova etapa, na qual as receitas tradicionais sicilianas passaram a dividir espaço com o gelato, sem que um produto substituísse o outro.
A vitrine da Cli Ice reúne cerca de 48 opções de gelato. O diferencial está na maneira como são preparados: segundo Marco, a produção é feita na própria casa, sem recorrer a produtos semiacabados. As versões de frutas também utilizam frutas frescas, em vez de pastas industrializadas.
Entre os sabores mais particulares está o Terre di Sicilia, uma criação da própria gelateria que reúne alguns dos ingredientes mais característicos da ilha: amêndoas de Avola, pistache, canela, laranja e limão. É uma combinação que traduz muito da identidade gastronômica siciliana, marcada pela presença das frutas cítricas, das amêndoas e dos frutos secos. Em uma única receita, diferentes referências da confeitaria regional se encontram em uma preparação gelada.
Outra escolha interessante é a avelã clara das Langhe, região do Piemonte conhecida pela produção de avelãs. Embora a Sicília também tenha sua tradição com esse ingrediente, Marco explica que a variedade piemontesa apresenta um perfil mais delicado, doce e aromático. Uma influência de outra região italiana que encontrou espaço no cardápio siciliano.
Se o gelato chama a atenção pela variedade, é na confeitaria que a Cli Ice revela algumas de suas preciosidades menos conhecidas. Entre as especialidades está a patate, uma antiga sobremesa siciliana que chama a atenção justamente pelo formato. O doce é moldado para lembrar uma pequena batata, mas sua composição está muito distante de qualquer receita salgada.
Na versão preparada por Marco, a base é um biscoito leve, semelhante ao savoiardo, aromatizado com laranja e uma pequena quantidade de fermento biológico. No interior, recebe um creme também com sabor de laranja. A cobertura é feita com glacê de marzipã, e um pinhão finaliza a decoração com o aspecto de uma pequena flor.
O resultado é uma sobremesa que brinca com a aparência e surpreende pelo conteúdo. A pasta de amêndoas, conhecida na Sicília como pasta reale, tem presença importante na tradição doceira da ilha. A preparação também se relaciona com uma família de doces palermitanos de marzipã moldados para reproduzir a aparência de outros elementos, entre eles as famosas patate di marzapane.
É justamente esse tipo de receita que revela uma dimensão menos conhecida da gastronomia italiana: preparações que não dependem de grandes vitrines ou reconhecimento internacional para carregar uma história importante.
A seleção da casa também inclui pêssegos doces, pequenos brioches aromatizados com alchermes e recheados com ricota, folhas de marzipã e cassatas. Ao lado dessas receitas, aparecem bolos, semifreddos, mousses e cheesecakes, além do bolo Rocher, preparado com avelãs quase inteiras.
A experiência na Cli Ice não termina na sobremesa. O cardápio acompanha diferentes momentos do dia e recupera costumes muito presentes na vida cotidiana siciliana. Pela manhã, além dos croissants, aparecem especialidades como as íris recheadas com ricota, os cartocci, as línguas doces com creme ou ricota e os fazzoletti, preparações de confeitaria que fazem parte da tradição local.
As granitas também ocupam um lugar importante, especialmente quando servidas com brioche, uma das combinações mais características do café da manhã siciliano. Diferentemente de um simples sorvete, a granita tem textura própria, formada por cristais finos de gelo, e é tradicionalmente consumida com o pão doce.
A parte salgada amplia ainda mais as possibilidades. Entre as opções está a ravazzata, uma massa macia recheada com ragu e marcada por uma pequena abertura na parte superior, onde se acrescenta mais molho. Também aparece o pizzotto, uma espécie de calzone coberto com tomate e mussarela.
Ao meio-dia, o estabelecimento oferece algumas opções de pratos, enquanto à noite o espaço também recebe clientes para aperitivos, com preparações que saem do próprio laboratório.
Atualmente, a Cli Ice conta com duas unidades no centro de Terrasini. A primeira mantém o endereço histórico na praça onde tudo começou. A segunda, chamada Cli Ice Duomo, fica a poucos passos dali, com vista para a catedral.
Nos bastidores, um laboratório de produção abastece as duas lojas e também fornece produtos para outros estabelecimentos, incluindo empresas ligadas ao Aeroporto de Palermo e operações em aeroportos e estações ferroviárias.
A administração continua familiar. Marco acompanha principalmente a produção de gelatos e sobremesas, enquanto seu genro, Gino Cracchiolo, cuida da parte administrativa e organizacional.
Mais de 60 anos depois da abertura do Bar Italia, a história continua sendo construída entre receitas antigas, novas criações e o trabalho de diferentes gerações. Em Terrasini, a Cli Ice mostra que uma gelateria pode ser muito mais do que um lugar para escolher um sabor na vitrine: pode também guardar uma parte da memória gastronômica de uma cidade.
E talvez seja justamente essa a melhor maneira de conhecer a Sicília: provar aquilo que todo mundo já ouviu falar, mas também descobrir os doces que poucos sabem que existem.

