Turim nunca inventa por acaso. Mesmo quando o gesto parece mínimo, quase distraído duas fatias de pão, um recheio, a crosta retirada há sempre algo maior por trás. Uma ideia de cidade, de gosto, de tempo. Assim nasce o tramezzino. Não como moda, não como provocação, mas como resposta elegante a uma intuição vinda de longe e trazida de volta para casa com lucidez feminina, numa época que raramente reconhecia às mulheres o mérito das invenções.
Acontece em 1926, sob os pórticos da Piazza Castello, dentro do Caffè Mulassano. E acontece graças a Angela Demichelis Nebiolo.
Angela nasceu em Turim em 1904. Aos quinze anos parte para Detroit, como tantos italianos do início do século XX, mas com um detalhe que mudaria a história: ela volta. Nos Estados Unidos casa-se com Onorino Nebiolo e trabalha com ele no setor que hoje chamaríamos de food & beverage. O local do casal, o Nebiolo Café Dine and Dance, prospera. Come-se, bebe-se, dança-se. Observa-se. Aprende-se.
Em 1926, na contramão dos fluxos migratórios da época, Angela retorna à Itália com os filhos Felice e Gloria. Em Turim, a família assume o Mulassano, já ativo desde 1879, elegante, burguês, perfeitamente integrado ao ritmo lento dos pórticos sabaudos. É ali que Angela faz o que sabe melhor: adaptar sem copiar.
Nos Estados Unidos, ela havia conhecido o toast: pão quente, recheio fechado, prático. Mas Turim não é Detroit. O paladar turinês é mais exigente, menos tolerante a concessões, mais atento à matéria-prima do que ao espetáculo. Aquecer o pão já recheado limitaria ingredientes e sofisticação.
A solução é simples apenas na aparência: pão extremamente macio, sem crosta, com uma estrutura pensada para sustentar o recheio mesmo em temperatura ambiente. Sem excessos. Só equilíbrio. Nasce assim o tramezzino: não um sanduíche comum, mas um espaço intermediário. Entre a fome e o aperitivo. Entre a cozinha e o salão.
O sucesso não vem apenas da forma, mas do conteúdo. No Mulassano, os primeiros tramezzini são recheados com bagna cauda e trufas. Ingredientes identitários, profundamente piemonteses. Não é detalhe. É posicionamento.
São também os anos em que se consolida em Turim o ritual do aperitivo, com o vermute nascido na cidade há mais de dois séculos como protagonista. Os tramezzini tornam-se o acompanhamento perfeito: elegantes, discretos, nunca invasivos. E ganham até um nome de autor. Quem os batiza é Gabriele D’Annunzio, cliente habitual do café, que sugere “tramezzino” como alternativa italiana ao termo “sandwich”.
Às vezes, a história passa por uma mesa de café.
Hoje, o Caffè Mulassano celebra os cem anos do tramezzino com uma série de eventos entre abril e setembro. O ponto de partida é o próprio tramezzino: três receitas especiais, uma por mês, criadas por chefs estrelados e dedicadas a Angela, a D’Annunzio e ao Nebiolo’s, o local americano onde tudo começou.
Um grande retrato de Angela será instalado no interior do café, recolocando finalmente o rosto certo ao lado da invenção certa. Em setembro, está previsto um encontro aberto ao público com Salvatore Tripodi, autor de sua biografia. E o olhar se volta ao futuro com um concurso envolvendo estudantes do Instituto Hoteleiro de Turim, convidados a reinterpretar o gosto turinês dentro do tramezzino.
Porque tradições que não dialogam com os jovens viram apenas memória.
E o tramezzino, cem anos depois, não tem nenhuma intenção de virar passado.

