Tajani encerra missão no Brasil e defende a lei da cidadania: acabou com ‘black friday’ de passaportes

O vice-presidente do Conselho de Ministros e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, encerrou nesta quinta-feira, em São Paulo, uma missão de dois dias voltada ao fortalecimento das relações econômicas e comerciais entre Itália e Brasil.

Na última etapa da agenda, Tajani visitou o Museu da Imigração, onde falou sobre a reforma da cidadania italiana que leva seu nome e defendeu as novas regras, que restringiram o reconhecimento da cidadania por jus sanguinis às gerações mais próximas. A mudança provocou polêmica e fortes protestos entre comunidades de italianos e descendentes no Brasil, um dos países com maior número de pessoas interessadas no reconhecimento da cidadania italiana, que chegaram a apelidar a medida de “reforma da vergonha”.

No edifício histórico da antiga Hospedaria dos Imigrantes, que preserva a memória da imigração italiana que ajudou a formar a sociedade brasileira, Tajani afirmou que o objetivo da lei é preservar o significado da cidadania italiana e criticou o que considera uma utilização meramente instrumental do passaporte. “A lei busca defender a italianidade e a seriedade de ser cidadão italiano, o que significa acreditar na nossa língua, nos nossos valores e na nossa identidade italiana. Se o passaporte serve apenas para ir passar férias ou fazer compras em Miami, não é um bom sinal que estamos dando. Queremos que quem obtém a cidadania se sinta italiano, ame sua pátria e não apenas os negócios em Miami”, disse.

Segundo o ministro, quem deseja ser reconhecido como italiano continua tendo esse direito dentro das regras estabelecidas pela nova legislação. Sobre a decisão de limitar a transmissão da cidadania a duas gerações, Tajani questionou o motivo pelo qual muitos descendentes só passaram a demonstrar interesse pela cidadania italiana depois de décadas. “Se alguém queria e se sentia italiano, poderia ter feito isso antes. Por que a italianidade foi abandonada durante gerações? Isso significa que não havia interesse em ser italiano, e esse interesse explodiu quando surgiram os ‘Black Fridays’ para a compra da cidadania italiana”. Tajani voltou a defender a ideia de que a cidadania não deve ser tratada como um simples documento ou como uma vantagem administrativa. “A cidadania é uma coisa séria, ser italiano é uma coisa séria. E isso é demonstrado por todos os italianos que trabalham aqui”, destacou.

O balanço de sucesso da missão no Brasil

A passagem pelo Museu da Imigração encerrou uma agenda que, durante dois dias, teve como principal objetivo ampliar a presença das empresas italianas no Brasil e abrir novas oportunidades de negócios e investimentos. A missão foi organizada pelo ICE, a Agência Italiana para a Promoção no Exterior e Internacionalização das Empresas, em parceria com a Embaixada da Itália, e reuniu autoridades, representantes empresariais e uma delegação de empresas de setores como agroalimentar, farmacêutico, transição energética, infraestrutura, máquinas e equipamentos e tecnologia digital.

Antes de chegar ao museu, Tajani visitou duas grandes empresas italianas com forte presença no Brasil: a Enel e a Stellantis. “Visitei a sede da Enel, uma das grandes empresas italianas que operam neste país, não apenas em São Paulo. É uma realidade que representa a capacidade de saber fazer italiano e de empreender”, disse. Depois, Tajani esteve na Stellantis, grupo que reúne marcas como Fiat e que possui uma longa história no mercado automobilístico brasileiro. “A velha Fiat fez parte da história do automóvel no Brasil e ainda lidera as vendas de automóveis no país. É uma empresa que tem sangue italiano e representa uma realidade forte”, afirmou.

O crescimento das exportações e a força do Made in Italy

Na última etapa da agenda, o ministro aproveitou também para destacar a dimensão social da presença italiana na economia do Brasil. Para Tajani, a expansão das empresas italianas no exterior deve ser entendida também como uma política voltada à geração de emprego e renda: “nunca devemos esquecer que, quando falamos de empresas e exportações, temos sempre um objetivo: a pessoa. As empresas servem para criar empregos, para criar bem-estar. Eu acredito na economia social”.

O ministro encerrou a missão brasileira destacando os dados mais recentes do Istat, o instituto nacional de estatística da Itália, sobre o comércio exterior italiano.“É uma missão que se encerra de maneira muito positiva e com a notícia do Istat de que, nos primeiros seis meses deste ano, as exportações cresceram 4,5%. Isso demonstra que o governo soube coordenar bem a política de exportações e que o Made in Italy é o carro-chefe da nossa atividade produtiva”. O saldo comercial italiano ficou positivo em €24,5 bilhões.

A missão no Brasil e na Argentina também teve como objetivo aproximar as empresas italianas dos mercados que integram o Mercosul, em um momento de expectativa em torno do acordo comercial entre o bloco sul-americano e a União Europeia. “Esses dois dias aqui mostram que a Itália pode diversificar suas exportações e aumentar sua presença nos países que assinaram o acordo com o Mercosul. Criar bem-estar na Itália e também criá-lo nos países para os quais exportamos”, concluiu. O ministro afirmou ainda que a Itália mantém a meta de alcançar €700 bilhões em exportações anuais. “Podemos chegar a este objetivo até o final do próximo ano. O Istat certifica aquilo que já vínhamos observando ao viajar pelo mundo”, disse.

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