Esqueça o sossego da Toscana. No último final de semana, a orla de Viareggio não foi ocupada por guarda-sóis, mas por 100 mil pessoas, uma multidão que faria qualquer metrô em horário de pico parecer um retiro espiritual. O motivo? O quarto desfile dos gigantes de papel machê, que provou que o Carnaval italiano é muito mais do que máscaras de porcelana e canais silenciosos.
Fundado em 1873, o Carnaval de Viareggio é famoso por seus colossais carros alegóricos de papel machê, verdadeiras esculturas móveis que misturam arte, engenharia e sátira política. Chefes de Estado, figuras públicas, celebridades e personagens da cultura pop costumam ganhar versões caricatas de vários metros de altura, com engrenagens internas que fazem olhos piscarem, bocas se moverem e braços acenarem como se fossem criaturas saídas de um parque temático renascentista.
Neste quarto desfile, o espetáculo estava completo: nove carros alegóricos de primeira categoria, quatro de segunda, oito grupos mascarados, oito participantes individuais e ainda plataformas coletivas fora de competição. Um verdadeiro campeonato da imaginação.
E, como manda a tradição, tudo começou com o disparo triplo de canhão, três estrondos secos que ecoaram pela orla e funcionaram como o “abre-alas” à italiana. Mesmo depois do início oficial, as filas nas bilheterias continuavam. Porque, em Viareggio, ninguém quer ficar do lado de fora quando os gigantes começam a desfilar.
Se os carros alegóricos já ocupam o imaginário coletivo, desta vez o céu roubou parte da cena. Uma exibição de pipas transformou a praia da Piazza Mazzini em um espetáculo paralelo. Grupos vindos de Gubbio, Livorno, Treviso e Florença coloriram o horizonte com figuras dançantes ao vento.
A estrela foi uma pipa de 10 metros de comprimento, feita com 180 metros de tecido e cobrindo impressionantes 270 metros quadrados. Suspensa sobre a praia, parecia competir em tamanho com os próprios carros alegóricos, só que flutuando com elegância.
O desfile foi dedicado à AVIS, a Associação Italiana de Doadores de Sangue, reforçando a importância da doação. Entre o público, estavam doadores de várias partes do país, incluindo dois verdadeiros maratonistas da solidariedade.
Quem perdeu esse sol radiante ainda tem duas chances de ver os gigantes:
- Terça-feira de Carnaval (15h): Com transmissão ao vivo pela Rai 3 para quem prefere fugir do empurra-empurra.
- Sábado, 21 de fevereiro (17h): O grande fechamento noturno, onde finalmente anunciam os vencedores sob as luzes da orla.
Viareggio é isso: papel, cola, um pouco de sarcasmo e uma audácia que faz até o sol parar para assistir.

