Na Sicília, há produtos que parecem carregar no sabor a paisagem de onde vieram. É o caso dos salumi produzidos com o Suino Nero Siciliano, uma raça ligada ao território dos Nebrodi e que ganhou novo espaço na gastronomia da ilha graças ao trabalho de criadores que apostaram na valorização de uma matéria-prima profundamente local.
A história da Azienda Agricola Mulinello começa justamente aí: nos animais, na terra e em uma ideia de produção que procura acompanhar todo o percurso até o produto final. Em Assoro, na província de Enna, a empresa familiar trabalha há mais de 40 anos com a criação e transformação de suínos sicilianos, desenvolvendo ao longo do tempo uma cadeia que reúne criação, alimentação, abate e produção de carnes e salumi.
O protagonista é o chamado maialino nero, criado em sistemas ao ar livre e semiar livre, especialmente nas áreas arborizadas dos Nebrodi. É um animal que faz parte da história rural da Sicília e cuja carne é utilizada para produzir diferentes especialidades, mantendo uma ligação direta entre criação e gastronomia.
O segredo está no tempo
Na produção de um bom salume, o tempo tem um papel que nenhuma tecnologia consegue substituir. Há a seleção da matéria-prima, o trabalho de preparação e, depois, os processos que transformam a carne em um produto com características próprias.
Na Mulinello, essa etapa combina equipamentos modernos com técnicas artesanais. O trabalho manual continua presente nos laboratórios da empresa, onde são produzidos cortes e embutidos a partir da carne dos animais criados pela própria cadeia produtiva.
Essa proximidade entre criação e transformação é uma das características da empresa. Em vez de separar completamente campo, criação e produção, a Mulinello desenvolveu um modelo integrado, no qual diferentes etapas estão sob o mesmo controle.
É uma maneira de saber não apenas o que chega ao prato, mas também de onde veio.
Uma Sicília que também se come
Há algo de particularmente interessante no Suino Nero Siciliano: ele não é apenas uma matéria-prima. Sua valorização está ligada à recuperação de uma produção tradicional e à identidade de uma área específica da ilha.
A Mulinello participou, em 2001, da criação do Consorzio di Tutela del Suino Nero dei Nebrodi, iniciativa voltada à proteção e valorização da raça e de seus produtos. A aposta ajudou a reforçar a presença desse suíno na gastronomia siciliana e a transformar um patrimônio ligado à criação rural em uma verdadeira excelência alimentar.
Na mesa, essa história ganha uma dimensão mais simples. Um prato de salumi pode parecer apenas uma entrada, acompanhado de pão, queijo ou vinho. Mas, por trás dele, existe uma cadeia inteira: os animais, os criadores, os campos, os métodos de produção e o território.
Do campo à mesa, sem desperdiçar
A preocupação com o território também aparece na maneira como a empresa administra sua produção. Os resíduos orgânicos são destinados à compostagem e o composto resultante volta aos terrenos agrícolas, onde é utilizado como fertilizante.
É uma lógica circular bastante concreta: aquilo que nasce da atividade produtiva retorna à terra.
Ao mesmo tempo, a empresa mantém uma estrutura industrial capaz de acompanhar as diferentes fases da cadeia e investe na formação de seus funcionários. O objetivo é conciliar uma produção em escala com o conhecimento necessário para trabalhar uma matéria-prima que depende de características específicas.
No fim, a história do Mulinello é menos sobre nostalgia e mais sobre transformar uma tradição rural em uma excelência contemporânea. O maialino nero deixa de ser apenas um animal criado nas colinas sicilianas e passa a representar uma maneira de levar a identidade dos Nebrodi para a mesa. E talvez seja justamente isso que torna um bom salume italiano tão interessante: antes de chegar à tábua de frios, ele já carrega uma história.
Salumi e porco preto: a excelência siciliana que chega à mesa brasileira

