Na noite desta quarta-feira (7) em Milão, LIDE Italia e BPER ampliaram o debate sobre as oportunidades comerciais e industriais entre a Europa e a América do Sul. Financiamento, investimentos e parcerias estão no centro das atenções em um mercado que olha para o futuro.
O Brasil volta a ocupar um lugar de destaque nas estratégias de internacionalização das empresas italianas. Depois de Roma, foi a vez de Milão receber um novo encontro organizado pela LIDE Italia, em parceria com o BPER, dedicado às perspectivas econômicas abertas pelo acordo entre a União Europeia e o Mercosul.
O evento reuniu representantes dos setores financeiro e empresarial para analisar as oportunidades de um mercado com enorme potencial, em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, tarifas comerciais e pela necessidade de diversificar os destinos das exportações. Entre os participantes estiveram também a WEG Automation Europe e a Eldor Corporation, duas empresas que compartilharam suas experiências nas relações econômicas entre Itália e Brasil.
O Jornal Itália acompanhou o encontro e ouviu os principais participantes. Das conversas, surgiu uma percepção comum: o Brasil oferece importantes oportunidades de crescimento, mas exige preparação, investimentos e uma visão estratégica de longo prazo.
O financiamento como motor da internacionalização
Para Stefano Bellucci, responsável pelo Serviço Internacional do BPER, o Brasil e os demais países do Mercosul representam uma alternativa estratégica para as empresas italianas, especialmente diante do atual cenário econômico global.
O apoio bancário se desenvolve em duas frentes. A primeira envolve instrumentos de trade finance, como cartas de crédito, garantias internacionais e operações apoiadas pela SACE. A segunda está relacionada ao acompanhamento das empresas que pretendem estabelecer uma presença direta nos mercados sul-americanos.
Não se trata necessariamente de transferir a produção para o exterior, mas de ampliar a capacidade industrial italiana por meio de estruturas comerciais e produtivas capazes de valorizar o conhecimento técnico e a experiência das empresas do país.
Tarifas e novas parcerias: as perspectivas do acordo
O advogado Giacomo Guarnera, presidente da LIDE Italia, destacou o potencial do acordo União Europeia–Mercosul para promover uma integração maior entre as economias dos dois continentes.
A eliminação gradual das barreiras tarifárias poderá abrir oportunidades em diversos setores, da indústria farmacêutica ao agronegócio, com destaque também para os vinhos italianos, incluindo o Prosecco e o Franciacorta.
Será fundamental, no entanto, analisar cuidadosamente os códigos aduaneiros e os diferentes cronogramas de redução das tarifas, que variam de acordo com a categoria de cada produto.
Mas, segundo Guarnera, o verdadeiro valor do acordo vai além das trocas comerciais. A perspectiva mais promissora está na criação de parcerias estratégicas e colaborações industriais capazes de se desenvolver no médio e longo prazo.
Investimentos italianos: uma presença que ainda precisa crescer
A necessidade de uma atuação mais expressiva da Itália no Brasil foi destacada por Riccardo Maria Monti, ex-presidente da ICE, a Agência Italiana de Comércio Exterior.
Segundo Monti, apesar da profundidade dos vínculos históricos e culturais entre os dois países, os investimentos italianos no Brasil ainda são inferiores aos de outros parceiros europeus, como Espanha e França.
Para recuperar espaço, a Itália deveria concentrar esforços em setores de alto potencial, como tecnologia digital, inteligência artificial, data centers e indústria de transformação de alimentos.
O agronegócio, em particular, pode se tornar um dos principais campos de cooperação. O Brasil possui uma enorme capacidade de produção agrícola, enquanto a Itália se destaca nas tecnologias de processamento, máquinas industriais e soluções de embalagem. Essa complementaridade pode estimular investimentos capazes de gerar maior valor agregado.
Monti também ressaltou que o fortalecimento das relações econômicas depende, sobretudo, de um apoio financeiro mais consistente. Instituições como SACE, SIMEST e bancos privados podem desempenhar um papel decisivo no incentivo aos investimentos italianos.
O Brasil exige uma estratégia de longo prazo
A experiência de Giovanni Gaia, presidente do Atom Group, trouxe ao debate uma reflexão prática sobre as condições necessárias para atuar com sucesso no mercado brasileiro. Seu primeiro conselho aos empresários italianos é não ter medo da complexidade do país, mas também não subestimá-la.
O Brasil é um mercado que exige continuidade, conhecimento das dinâmicas locais e, principalmente, uma estratégia bem definida. A improvisação, segundo Gaia, está entre os erros mais comuns. Ao mesmo tempo, planejamento não significa rigidez. A capacidade de adaptação às condições do mercado deve acompanhar qualquer projeto empresarial. A combinação entre visão de longo prazo e flexibilidade pode ser determinante para o sucesso de um investimento.
Conhecer o mercado antes de atravessar o Atlântico
Um alerta sobre a importância do planejamento também foi feito por Guido Ruggeri, responsável pela Internacionalização de Empresas e pela plataforma Bperestero.it, do BPER Corporate & Investment Banking.
O entusiasmo diante das novas oportunidades não pode substituir uma análise cuidadosa do mercado, da legislação e das condições operacionais.
Por meio da plataforma BPER Estero, o banco oferece às empresas ferramentas de informação e serviços de acompanhamento para identificar o momento e as estratégias mais adequadas de entrada nos mercados internacionais. O objetivo é reduzir custos, prazos e riscos por meio de consultorias especializadas, com atenção também às pequenas e médias empresas.
No caso brasileiro, o BPER pretende dar continuidade às iniciativas de orientação e apoio às empresas, em colaboração com a LIDE Italia e parceiros como SACE e SIMEST.
A experiência da WEG: do Brasil para a Itália
Uma perspectiva complementar foi apresentada por Reinaldo Stuart Jr., managing director da WEG Automation Europe, que compartilhou a experiência do grupo brasileiro no mercado italiano. Segundo o executivo, o Brasil oferece oportunidades em diversos setores, mas exige conhecimento aprofundado da legislação tributária e trabalhista, além do apoio de consultores especializados.
No caminho inverso, do Brasil para a Itália, a experiência da WEG demonstra a importância das aquisições e parcerias empresariais. O grupo optou por investir em uma empresa italiana já consolidada, aproveitando uma estrutura comercial existente, profissionais qualificados e uma carteira de clientes construída ao longo de cinquenta anos de atividade.
Esse modelo pode representar uma alternativa eficiente para empresas brasileiras interessadas em ingressar no mercado europeu sem precisar começar suas operações do zero.
Além das exportações, uma nova aliança industrial
O encontro em Milão mostrou que as perspectivas econômicas entre Itália e Brasil vão muito além das tradicionais operações de importação e exportação.
O acordo União Europeia–Mercosul pode impulsionar uma nova fase de comércio, investimentos e cooperação, mas seu sucesso dependerá da capacidade das empresas de construir relações duradouras.
De um lado, a Itália oferece tecnologia, competências industriais e capacidade de transformação. Do outro, o Brasil representa um mercado de grandes dimensões, com recursos produtivos e importantes perspectivas de desenvolvimento.
A verdadeira oportunidade não será apenas vender mais, mas construir juntos novas cadeias produtivas e industriais.
Foi justamente essa perspectiva que a LIDE Italia e o BPER colocaram no centro do debate empresarial: transformar uma relação histórica entre dois países em uma parceria econômica cada vez mais concreta e estratégica.

