A Santa Sé anunciou nesta quarta-feira 5 de agosto o roteiro da primeira viagem apostólica do papa Leão XIV à América Latina. Entre os dias 6 e 17 de novembro, o pontífice visitará Uruguai, Argentina e Peru, naquela que será sua sexta viagem internacional desde o início do pontificado e a primeira ao continente onde viveu uma parte importante de sua missão pastoral.
A ausência do Brasil, país que reúne a maior população católica do mundo, despertou imediatamente a atenção de analistas, jornalistas e fiéis. No Vaticano, porém, a leitura predominante é de que a escolha não representa um afastamento da Igreja brasileira, mas faz parte de uma estratégia pastoral cuidadosamente construída pela Secretaria de Estado e pelo Dicastério responsável pelas viagens pontifícias.
O itinerário evidencia três realidades muito distintas da Igreja latino-americana.
No Uruguai, onde apenas cerca de 36% da população se declara católica, segundo dados da Santa Sé, Leão XIV encontrará uma das sociedades mais secularizadas do continente. A visita assume, portanto, um forte caráter missionário, reafirmando a presença da Igreja em um contexto marcado pela crescente indiferença religiosa.
Na Argentina, país natal do papa Francisco, a viagem possui um evidente valor simbólico. Durante os doze anos de seu pontificado, Francisco nunca realizou uma visita oficial ao seu país de origem. A presença de Leão XIV em Buenos Aires, Córdoba e no Santuário de Luján representa um gesto de proximidade com a Igreja argentina e um novo capítulo nas relações entre a Santa Sé e o país.
O Peru será, provavelmente, o momento mais pessoal da viagem. Robert Francis Prevost viveu aproximadamente vinte anos em território peruano como missionário agostiniano e depois como bispo de Chiclayo, antes de ser chamado a Roma. Para muitos observadores, o retorno ao Peru será também um reencontro com a comunidade que marcou profundamente sua identidade pastoral e espiritual.
O programa oficial prevê:
- 6 a 8 de novembro – Montevidéu, Paysandú e Florida (Uruguai);
- 8 a 11 de novembro – Buenos Aires, Córdoba e Luján (Argentina);
- 11 a 17 de novembro – Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa (Peru).
E o Brasil?
Embora a ausência brasileira tenha provocado questionamentos, especialistas em assuntos vaticanos lembram que a definição de uma viagem apostólica responde a diversos critérios: prioridades pastorais, logística, segurança, agenda diplomática e o tempo necessário para preparar cada visita.
O Brasil continua ocupando um lugar estratégico para a Igreja Católica. Além de concentrar a maior comunidade católica do planeta, o país desempenha um papel central nas discussões sobre evangelização, justiça social, meio ambiente e Amazônia — temas que permanecem entre as prioridades da Santa Sé.
Por isso, no ambiente vaticano, a expectativa é que uma visita ao Brasil aconteça em uma etapa posterior do pontificado, quando houver condições para organizar um programa à altura da dimensão e da importância do país.
No comunicado oficial, a Santa Sé definiu a missão como uma Jornada Apostólica, reafirmando que o objetivo principal da viagem é fortalecer a comunhão entre as Igrejas locais, incentivar o diálogo com a sociedade e levar uma mensagem de paz, esperança e solidariedade.
Mais do que um simples roteiro internacional, a primeira visita latino-americana de Leão XIV oferece também uma leitura das prioridades do novo pontificado: uma Igreja próxima das periferias, atenta aos desafios da secularização e profundamente enraizada na experiência missionária que marcou a trajetória pessoal do sucessor de Pedro.

