Na Itália existem lugares onde a paisagem conta uma história milenar feita de mar, vento e engenho humano. Entre eles, duas salinas se destacam pela antiguidade e pelo fascínio: as de Trapani e Paceco, na Sicília, e as de Cagliari, na Sardenha. Ambas têm suas raízes na época fenícia, quando o sal era considerado “ouro branco” e representava um recurso estratégico para o comércio no Mediterrâneo.
Salinas de Trapani e Paceco (Sicília)
Na costa ocidental da Sicília, entre Trapani e Marsala, estende-se uma paisagem geométrica de tanques de água salobra que refletem o céu como espelhos antigos. Aqui surgem as salinas de Trapani e Paceco, um cenário cultural que remonta pelo menos ao século VIII a.C., quando os fenícios, hábeis navegadores e comerciantes, identificaram nesse trecho da costa as condições ideais para a extração do sal.
O clima quente, o vento constante e a configuração baixa e lagunar do território permitiram o desenvolvimento de um sistema produtivo baseado na evaporação natural da água do mar. Os fenícios não apenas exploraram essas condições, mas introduziram uma verdadeira organização protoindustrial, transformando o sal em uma mercadoria essencial para a conservação dos alimentos e para as trocas ao longo das rotas que conectavam o Norte da África, a Sicília e a Península Ibérica.
Ao longo dos séculos, esse conhecimento foi transmitido e aperfeiçoado. Os moinhos de vento, hoje símbolo icônico das salinas, foram introduzidos posteriormente para bombear a água de um tanque a outro e moer o sal. Ainda hoje, ao caminhar entre os montes brancos e os tanques rosados ao entardecer, percebe-se a continuidade de uma atividade que atravessou civilizações, dominações e transformações econômicas sem jamais perder sua identidade.
Salinas de Cagliari (Sardenha)
Do outro lado do Tirreno, nos arredores de Cagliari, desenvolve-se outro sistema salineiro de origem antiquíssima, hoje parte do Parque Natural Regional Molentargius-Saline. Também aqui foram os fenícios, seguidos pelos cartagineses e romanos, a reconhecer o valor estratégico dessas águas rasas e salobras.
O nome “Molentargius” deriva do sardo e significa “burros carregados”, uma referência ao transporte do sal que durante séculos foi realizado justamente com esses animais. Muito antes disso, já na época fenícia, o sal produzido nesses tanques era destinado ao comércio marítimo e à conservação do pescado, elemento essencial para as comunidades costeiras.
As salinas de Cagliari representam um equilíbrio perfeito entre atividade produtiva e biodiversidade. Hoje, ao lado das estruturas históricas, vivem colônias de flamingos-rosa que escolheram essas águas como habitat permanente, transformando a paisagem em um ecossistema único onde natureza e história coexistem.
Uma herança fenícia ainda viva
Essas duas salinas não são apenas locais de produção ou atrações paisagísticas. São testemunhos concretos da presença fenícia no Mediterrâneo ocidental e da capacidade desse povo de interpretar o território de forma econômica e sustentável.
O sal, elemento simples e universal, torna-se assim o fio condutor de uma narrativa que atravessa milênios. Das embarcações fenícias carregadas de mercadorias às modernas rotas turísticas, Trapani e Cagliari continuam a contar uma história feita de trocas, cultura e adaptação.
Visitar essas salinas hoje significa entrar em contato com uma memória estratificada, onde cada tanque, cada cristal de sal e cada sopro de vento guardam o eco de uma antiga civilização que deixou uma marca profunda nas costas italianas.

