Morre Camillo Ruini, o cardeal que marcou a política e a Igreja na Itália

A Itália se despede de uma das figuras mais influentes do catolicismo contemporâneo. Morreu aos 95 anos o cardeal Camillo Ruini, protagonista de uma fase decisiva da Igreja italiana e personagem central das relações entre religião, sociedade e política no país durante mais de duas décadas.

Seu nome talvez não fosse tão conhecido fora dos círculos eclesiásticos quanto o de papas e chefes de governo, mas poucos religiosos exerceram tanta influência nos bastidores da vida pública italiana. Durante anos, Ruini foi considerado uma das vozes mais respeitadas — e também mais controversas — do catolicismo europeu.

Nascido em 1931, na região da Emilia-Romagna, foi ordenado sacerdote ainda nos anos 1950 e construiu uma rápida trajetória dentro da hierarquia da Igreja. A projeção nacional veio nos anos 1980, quando passou a ocupar cargos estratégicos na Conferência Episcopal Italiana. Em 1991, recebeu de João Paulo II a missão de liderar o episcopado italiano, função que exerceu por mais de quinze anos.

O período coincidiu com profundas transformações no país. A antiga Democracia Cristã, partido que durante décadas representou grande parte do eleitorado católico, desapareceu do cenário político após os escândalos dos anos 1990. Nesse novo contexto, Ruini trabalhou para manter a influência cultural e social da Igreja em uma Itália cada vez mais secularizada.

Foi durante sua liderança que temas como aborto, bioética, reprodução assistida, família e fim da vida passaram a ocupar posição central no debate público italiano. Defensor convicto das posições tradicionais da Igreja, tornou-se referência para setores mais conservadores do catolicismo e um interlocutor frequente dos governos que se sucederam em Roma.

Sua proximidade com João Paulo II foi marcante, mas sua influência permaneceu forte também durante o pontificado de Bento XVI, de quem era considerado um dos principais aliados intelectuais na Itália. O chamado “ruinismo”, termo que chegou a entrar em dicionários e enciclopédias italianas, passou a identificar uma fase em que a Igreja adotou uma postura mais ativa na defesa de valores considerados fundamentais para sua identidade.

Mesmo após deixar os principais cargos de comando, Ruini continuou sendo uma figura consultada por bispos, intelectuais e jornalistas. Nos últimos anos, acompanhou à distância as transformações promovidas pelo papa Francisco, que imprimiu uma nova orientação à Igreja italiana, mais voltada para questões sociais e pastorais.

Sua morte encerra um capítulo importante da história recente do catolicismo na Itália. Para admiradores e críticos, permanece a imagem de um cardeal que ajudou a moldar o debate público italiano em um período de grandes mudanças, deixando uma marca profunda na relação entre Igreja, cultura e política no país.

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