Milão não buscou o efeito especial. Em um momento histórico marcado por instabilidades econômicas, tensões geopolíticas e temperaturas cada vez mais elevadas, a Milano Fashion Week Masculina dedicada às coleções Primavera/Verão 2027 escolheu um caminho diferente: o da concretude, da qualidade e de uma nova ideia de elegância masculina.
Entre 19 e 23 de junho, a capital lombarda voltou a ser o centro mundial da moda masculina, reunindo grandes maisons, designers emergentes, compradores internacionais, imprensa especializada e celebridades vindas de todas as partes do mundo.
A edição de 2026 confirmou a capacidade de Milão de se reinventar sem trair a própria identidade. Ao lado dos grandes nomes da moda italiana, o calendário acolheu novas vozes e importantes estreias internacionais, demonstrando como o menswear continua sendo um dos segmentos mais dinâmicos de todo o sistema da moda.
Foram mais de oitenta compromissos entre desfiles, apresentações e eventos especiais, em uma fórmula cada vez mais aberta à contaminação cultural e à experimentação.
Entre as presenças mais aguardadas estavam naturalmente Prada, Dolce&Gabbana e Giorgio Armani, mas a atenção dos profissionais do setor também se concentrou no retorno da Ralph Lauren e na chegada ao calendário de Thom Browne, dois nomes que reforçaram ainda mais o perfil internacional da semana de moda.
O desfile da Prada, assinado por Miuccia Prada e Raf Simons, foi provavelmente um dos mais comentados da temporada. A maison apresentou uma reflexão sobre o guarda-roupa cotidiano, transformando peças aparentemente simples em objetos de luxo por meio de materiais sofisticados, técnicas inovadoras e proporções cuidadosamente estudadas.
O resultado foi um retorno à simplicidade como valor contemporâneo, distante dos excessos e mais próximo da realidade do consumidor atual.
Em uma direção oposta, Dolce&Gabbana confirmou sua vocação para o espetáculo. A coleção celebrou uma masculinidade sensual e mediterrânea, composta por micro shorts, denim trabalhado, regatas ajustadas ao corpo e detalhes preciosos. Uma proposta deliberadamente teatral que transformou a passarela em um espetáculo visual de grande impacto.
Encerrando a semana, Giorgio Armani apresentou uma coleção inspirada no Mediterrâneo. Tons de areia, branco, cinza e materiais naturais definiram uma visão relaxada e sofisticada do homem contemporâneo. Blazers leves, calças fluidas e volumes suaves narraram um verão elegante e sem ostentação, confirmando mais uma vez a extraordinária atualidade da linguagem Armani.
Entre as novidades mais significativas destacaram-se as estreias de marcas como Martin Quad, Garcias e Shinyakozuka, capazes de levar às passarelas novas sensibilidades estéticas e uma visão global da moda masculina. Merece destaque também a presença de Saul Nash, designer britânico que continua redefinindo a relação entre sportswear, performance e alfaiataria contemporânea.
Do ponto de vista das tendências, a palavra-chave foi “leveza”. As altas temperaturas que acompanharam a semana influenciaram profundamente as coleções. Linho, algodão tecnológico, sedas leves e couros perfurados dominaram as passarelas.
O blazer continua sendo peça central do guarda-roupa masculino, mas tornou-se mais leve e menos estruturado. Os conjuntos ganharam fluidez, as golas se abriram, as transparências aumentaram e o corpo voltou a ser protagonista após anos dominados por silhuetas oversized.
Outro elemento que emergiu com força foi a pluralidade das identidades masculinas. Já não existe um único modelo estético. Ao lado de figuras atléticas e sensuais convivem silhuetas mais esguias, propostas minimalistas e interpretações românticas da masculinidade.
As passarelas milanesas mostraram uma moda mais inclusiva e menos rígida, capaz de dialogar com públicos diversos sem perder coerência.
A primeira fila dos desfiles também confirmou a atratividade global do evento. Na Prada estiveram presentes personalidades como Anthony Edwards, Troye Sivan, o grupo sul-coreano ENHYPEN e o ator Louis Partridge, evidenciando a crescente integração entre moda, música, cinema e cultura pop global.
Se esta edição deixou uma mensagem clara, foi a de que o luxo masculino está mudando de pele. Menos ostentação, mais funcionalidade. Menos formalidade, mais liberdade.
Milão respondeu aos desafios do presente com uma moda capaz de ser desejável sem perder autenticidade. E é justamente nessa busca por equilíbrio entre inovação e tradição que reside hoje a sua maior força. Próxima para Paris…

