Histórias de Famílias Italianas no Brasil: Família Scavone (Parte 2) A trajetória da Basilicata ao Brasil

Depois de ter sido o primeiro membro da família Scavone a desembarcar no Brasil, Gerardo abriu um caminho que mudaria para sempre o destino de seus descendentes. No entanto, seria seu filho, Laviero Salvatore Scavone, quem consolidaria definitivamente as raízes da família em solo brasileiro.

Nascido em Tito, em 11 de novembro de 1848, Laviero foi batizado seis dias depois, em 17 de novembro, data dedicada a São Laviero Mártir, padroeiro da cidade. Em sua homenagem, recebeu o nome que o acompanharia por toda a vida.

Sua juventude, porém, foi marcada pelas mesmas dificuldades que acompanharam as gerações anteriores.

Em 1871, casou-se com Filomena Giosa, irmã de sua madrasta Rosina. Dessa união nasceram quatro filhos, mas apenas Angiolina sobreviveu. Poucos meses após o nascimento do quarto filho, Filomena faleceu. O recém-nascido também morreria pouco tempo depois.

A tragédia parecia repetir-se de geração em geração. Assim como havia acontecido com seu pai, Gerardo, e, antes dele, com seu avô Vitonicola Laviero, Salvatore também conheceu a dor da viuvez ainda jovem.

Cinco anos mais tarde, em 1885, decidiu reconstruir sua família ao casar-se com Concetta Caprio, nascida em Tito, em 23 de outubro de 1863, filha de Antonio Caprio, natural de Marsico Nuovo, e de Lucia Di Giurni, também natural de Tito.

Dessa união nasceram sete filhos: Gerardo, Lucia, Antonio, Elvira, Francesco Michele, José e Geraldo.

Os cinco primeiros nasceram na Itália, enquanto José e Geraldo já nasceriam em São Paulo.

Mesmo assim, a dor continuou fazendo parte da vida da família. Gerardo, Lucia e Elvira morreram ainda crianças, antes mesmo que os Scavone deixassem a Basilicata.

A difícil decisão de emigrar

Enquanto Salvatore enfrentava sucessivos lutos e dificuldades, seu pai, Gerardo, já havia iniciado uma nova vida em São Paulo.

As cartas enviadas do Brasil alimentavam uma esperança que parecia impossível de encontrar na Itália. Não havia garantias de sucesso nem qualquer certeza sobre o futuro, mas uma convicção tornava-se cada vez mais forte: do outro lado do Atlântico havia trabalho. Diante da crescente pobreza, da falta de oportunidades e da possibilidade de contar com o apoio do pai, já estabelecido no Brasil, Salvatore tomou a decisão que mudaria para sempre o destino de sua família.

Em 12 de março de 1895, embarcou no porto de Gênova a bordo do vapor Rosario. Partiu sozinho. Na Itália permaneceram Concetta e os filhos. Havia ainda um motivo que tornava aquela despedida ainda mais dolorosa: Concetta estava grávida.

Enquanto Salvatore atravessava o oceano em busca de uma nova vida no Brasil, sua esposa daria à luz sem a presença do marido.

Cinco anos de espera

Durante cinco longos anos, a família permaneceu separada.

Enquanto Salvatore trabalhava em São Paulo para criar as condições necessárias para reunir novamente os seus familiares, Concetta criava praticamente sozinha os filhos que permaneceram na Itália. Somente em 1900 chegou o momento tão esperado. Quando finalmente as condições financeiras permitiram, Concetta decidiu atravessar o Atlântico ao lado dos filhos Antonio, então com dez anos, e Francesco Michele, de apenas quatro, o menino que o pai ainda não havia tido a oportunidade de conhecer pessoalmente.

A família embarcou em Gênova no vapor Sempione. Em 14 de março de 1900, finalmente desembarcou no Brasil. Depois de cinco anos de separação, os Scavone puderam se reencontrar.

Estabeleceram-se no bairro da Consolação, em São Paulo, uma das regiões que, na época, concentrava um número cada vez maior de famílias italianas.

A força da comunidade italiana

Assim como acontecia nas pequenas cidades da Basilicata, também em São Paulo os imigrantes reconstruíram uma sólida rede de solidariedade. Parentes, conterrâneos e amigos continuavam vivendo próximos uns dos outros. Moravam na mesma rua, em bairros vizinhos ou a poucas centenas de metros de distância. Quando alguém passava por dificuldades, os demais ofereciam ajuda.

Emprestavam dinheiro, dividiam alimentos, indicavam oportunidades de trabalho e cuidavam dos filhos das outras famílias.

Essa rede de apoio tornou-se um dos pilares da integração dos italianos no Brasil e permitiu que milhares de imigrantes superassem as dificuldades dos primeiros anos.

Uma nova tragédia

A tranquilidade reencontrada, infelizmente, durou muito pouco. Em 2 de maio de 1906, Laviero Salvatore Scavone morreu em consequência dos gravíssimos ferimentos provocados pelo coice de um cavalo. Tinha pouco mais de cinquenta anos. Deixou viúva Concetta, então com 42 anos, e quatro filhos ainda dependentes: Antonio, Francesco Michele, José e Geraldo.

Mais uma vez, o destino colocava a família diante da necessidade de recomeçar.

A coragem de Concetta

Sozinha, Concetta precisou assumir integralmente o sustento da família. Passou a trabalhar como lavadeira para garantir aos filhos o mínimo necessário para viver. Nunca voltou a se casar. Mesmo enfrentando enormes dificuldades financeiras, conseguiu manter a família unida e transmitir aos filhos os valores da dignidade, do sacrifício e da perseverança, que acompanhariam as gerações seguintes.

Nos últimos anos de sua vida, começou a apresentar problemas cognitivos. Ainda assim, jamais abandonou um sonho. Desejava embarcar mais uma vez em um navio rumo à Itália.

Queria rever Tito. Reencontrar os parentes. Percorrer novamente as ruas de sua infância. Contemplar mais uma vez as montanhas da Basilicata. Esse sonho, porém, nunca se realizou. Talvez porque a cidade que existia em sua memória já não fosse mais a mesma. O tempo transforma os lugares da mesma forma que transforma as pessoas.

Mas a memória permanece.

E seria justamente essa memória que seria preservada pela geração seguinte, destinada a manter vivo, por mais de um século, o vínculo entre Tito e o Brasil.

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