Meu retorno à Toscana – Parte 4: Florença e o turismo de massa, o que ninguém conta aos visitantes

Caros leitores, chegamos ao quarto episódio da minha coluna.

Nos dois meses que passei na Toscana, em Florença, pude viver e observar de perto a evolução da minha cidade, as mudanças que, para mim, infelizmente, são em grande parte negativas. Hoje quero falar sobre um tema destacado por muitas páginas nas redes sociais e por inúmeros moradores: a questão da segurança.

A degradação atingiu praticamente todas as principais cidades italianas, sobretudo aquelas mais ricas do ponto de vista econômico e turístico. Uma delas é Florença. Florença, nos anos 1990 e nos primeiros anos dos anos 2000, era considerada uma das cidades mais tranquilas e seguras da Itália. Posso confirmar isso pessoalmente: foi lá que nasci, foi lá que cresci e foi lá que vivi durante muitos anos.

Na minha opinião, o aumento da degradação social e urbana começou após o fim da pandemia de coronavírus. Minha penúltima viagem à Itália aconteceu justamente em dezembro de 2021, quando a Europa voltou a permitir que cidadãos europeus residentes no exterior viajassem novamente para o continente e para a Itália.

Mas por que falo do início da degradação?

Muitas atividades econômicas florentinas foram obrigadas a fechar por causa do lockdown. Muitas faziam parte do tecido histórico da cidade: lojas de bairro, alfaiatarias, mercearias tradicionais, lojas de brinquedos. Desapareceram. Os auxílios governamentais não foram suficientes. Essas atividades foram esmagadas pelos altos aluguéis e por uma situação econômica que havia se tornado insustentável.

O que tudo isso produziu?

A padronização comercial. O surgimento de negócios sem alma, sem qualquer ligação com a cidade e com o seu tecido urbano. Lojas de doces americanos, Starbucks, KFC. Sim, o KFC, o frango frito americano, no coração do centro histórico de Florença, símbolo de uma cultura gastronômica extremamente distante da italiana. A dolce vita com frango frito.

Spritz vendidos em todos os cantos da cidade. O spritz nasceu como um aperitivo do final da tarde, mas hoje é possível vê-lo sendo consumido às dez da manhã. As famosas buchette del vino são cercadas por filas intermináveis para o Instagram. Filas infinitas para demonstrar que estiveram em Florença, como se uma foto diante de uma pequena janela que serve vinho representasse o auge da experiência florentina e italiana. O que quero dizer a vocês é simples.

Cada um é livre para fazer o que desejar. Não tenho nada a ensinar a ninguém sobre a vida. Mas, quando forem a Florença, ou a qualquer outra cidade histórica italiana, parem por um instante. Observem os monumentos. Tentem imaginar a época em que foram construídos. Pensem em como o ser humano foi capaz de criar tanta beleza.

Esses monumentos estão ali para vocês.

Foram deixados para as gerações futuras por mentes brilhantes, mecenas e pessoas que investiram no futuro da humanidade. Guardem o celular de vez em quando. Fotografem com os olhos. Aproveitem um pôr do sol não para o Instagram, mas para vocês mesmos. Foi exatamente isso que deixei de encontrar durante minha última estadia em Florença. Vi pessoas se empurrando para conquistar o melhor ângulo para publicar nas redes sociais. Pessoas fotografando praças e pôres do sol sem saber praticamente nada sobre o lugar onde estavam.

Antigamente o turismo era mais discreto, mais cultural. Hoje, muitas vezes, tornou-se consumista.

“Você tirou minha foto com o Davi de Michelangelo? Perfeito, agora vamos à Zara.”

O importante é publicar nas redes sociais. Ruas sujas. Sorveterias exibindo montanhas de sorvete vendidas como artesanais, quando muitas vezes são resultado de preparados industriais. Preços absurdos.

Porque as sorveterias realmente boas do centro histórico podem ser contadas nos dedos de uma mão. Todo o resto foi construído para atrair turistas.

Sim, os turistas são cartões de crédito ambulantes.

Como já escrevi no segundo episódio da coluna, muitas vezes o único objetivo é vender. Não gostou? O próximo cliente já está chegando.

O overtourism existe, é uma realidade concreta. Antigamente, como estruturas de hospedagem, existiam principalmente hotéis de diferentes categorias. Quem viajava era obrigado a se hospedar neles, não havia muitas alternativas.

Com a chegada do Airbnb houve uma verdadeira explosão de acomodações turísticas. Quem herdava uma casa dos avós ou possuía um pequeno apartamento logo o cadastrava na plataforma.

Esse fenômeno trouxe benefícios: criou nova riqueza, gerou um importante impacto econômico e favoreceu o surgimento de inúmeras empresas de serviços. No entanto, também contribuiu para o crescimento de um turismo de massa, muitas vezes de baixo nível, do tipo “come e vai embora”, que em muitos casos trouxe degradação.

O sistema de limpeza urbana já não consegue manter as ruas limpas. A cidade não foi concebida para suportar um turismo de massa dessa dimensão. Ondas e mais ondas de ônibus descarregam milhares de turistas todas as semanas. No almoço, sanduíche e Coca-Cola consumidos sentados na calçada. Papéis e lixo deixados no chão porque as lixeiras estão cheias e os serviços de coleta já não conseguem acompanhar a demanda.

Mais turistas também significam mais furtos. Mais dinheiro circulando significa maior atratividade para a criminalidade. O fenômeno dos batedores de carteira explodiu após a pandemia. Antes os furtos existiam, mas eram episódios relativamente raros.

Hoje, tente deixar o celular por apenas um segundo sobre a mesa de um café. Tente sentar-se e deixar a bolsa pendurada atrás da cadeira. Todos os dias os jornais da minha cidade relatam furtos e roubos, muitas vezes ocorridos em plena luz do dia. Veneza já introduziu uma taxa de entrada para limitar os acessos e Florença também está avaliando medidas semelhantes.

As relações sociais também mudaram.

Sabem por quê?

Porque as pessoas mudaram.

Hoje muitos trabalhadores vêm de outros países e de outras culturas. Isso transformou profundamente o rosto de muitas atividades comerciais e do setor de alimentação. Muitos restaurantes pioraram. O público italiano, hoje, frequenta cada vez menos o centro histórico.

Então por que investir em qualidade?

Muitos trabalhadores das cozinhas, frequentemente vindos da Ásia, não possuem qualquer ligação cultural com as tradições gastronômicas locais. Trabalham seguindo procedimentos padronizados, como em uma linha de montagem. Façam um pedido um pouco diferente e perceberão imediatamente as limitações do sistema.

Por quê?

Porque foram treinados para repetir sempre os mesmos movimentos.

Os italianos, sobretudo os jovens, já não querem exercer determinados tipos de trabalho. A restauração é um setor duro. Trabalha-se nos fins de semana, durante os feriados, no Natal e no Ano-Novo.

Eu sei muito bem do que estou falando. Tive um restaurante. Tenho amigos no setor e todos estão desesperados à procura de funcionários qualificados para o salão e para a cozinha.

A estação ferroviária, durante a noite, tornou-se terra de ninguém. A sensação de insegurança é forte. Batedores de carteira, furtos e pequena criminalidade.

Muitos me dizem: “Francesco, no Brasil estamos acostumados.” E é justamente esse o ponto.

Na Itália as pessoas baixam a guarda. Sentem-se seguras e acabam se envolvendo em situações inesperadas. Quando eu tinha dezessete anos caminhava tranquilamente à noite, sozinho ou com amigos. Nada acontecia.

Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, furtos, roubos e degradação social aumentaram de forma evidente. Isso pode parecer estranho para quem visita Florença por poucos dias, mas quem vive a cidade diariamente percebe claramente essas mudanças. Tenho essa confirmação através dos amigos que ainda vivem lá.

Muitos estão deixando o centro histórico para se mudar para bairros mais periféricos.

Um contrassenso.

Historicamente sempre foram as periferias a sofrer mais com a degradação. Em Florença, hoje, em alguns casos parece acontecer exatamente o contrário.

Lembrem-se de uma coisa.

Quem fala com vocês é Francesco Sibilla, nascido e criado no centro histórico de Florença. Eu observo a cidade com os olhos de quem a conheceu antes.

O turista a vê de maneira diferente. Vê a magia, o relaxamento, as férias. Tudo parece maravilhoso.

Acredita que as lojas de souvenirs representam a essência da cidade. Elas também estão por toda parte. Estatuetas mostrando o traseiro do Davi, ímãs de geladeira com referências anatômicas à famosa escultura. Eis a degradação turística da qual estou falando. Minimercados de bebidas e souvenirs administrados por pessoas que muitas vezes não possuem qualquer ligação com a cultura italiana e que estão ali apenas para vender.

Frequentemente nem conhecem a história dos objetos que oferecem aos visitantes.

Por hoje fico por aqui.

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