Uma viagem de um mês pelo Brasil para redescobrir os vestígios dos emigrantes de Zoldo, conhecer as comunidades formadas por seus descendentes e criar novos vínculos entre a Itália e o Brasil. Essa foi a experiência vivida por Marta Tacchetto, professora de italiano, que passou todo o mês de agosto no estado de Santa Catarina, entrando em contato com escolas, associações, instituições e famílias ligadas à história da emigração da Val di Zoldo.
A experiência foi apresentada durante o encontro organizado pelas associações Amici di Forno di Zoldo e Amici di Rio Jordão, juntamente com a própria Tacchetto. O encontro também foi uma oportunidade para falar sobre a geminação entre a Val di Zoldo e algumas cidades de Santa Catarina, iniciada em 1995 após a redescoberta de Rio Jordão e dos lugares para onde, no final do século XIX, emigraram numerosos colonos de Zoldo.
“Parti por iniciativa própria”, contou Tacchetto ao falar sobre sua viagem ao Brasil. A ideia era verificar pessoalmente o quanto ainda permanece vivo o vínculo entre as comunidades brasileiras de origem italiana e a terra de onde partiram seus antepassados. Por isso, ela entrou em contato com a associação Amici di Rio Jordão, perguntando se os descendentes dos emigrantes teriam interesse em sua presença, recebendo uma resposta positiva.
“Eu tinha curiosidade de conhecer essas cidades que nasceram com os italianos e os habitantes de Zoldo”, explicou. Mas a viagem também tinha um objetivo voltado para as novas gerações: criar uma ligação entre os estudantes de Zoldo e seus colegas brasileiros, colocando-os em contato e procurando transformar a relação histórica entre as duas comunidades em um intercâmbio concreto.
A ideia é justamente envolver mais os jovens também fora do ambiente escolar, por meio de possíveis viagens de intercâmbio ou até de formas mais simples de comunicação, como o tradicional “amigo de correspondência”.
Durante sua permanência no Brasil, Tacchetto também teve a oportunidade de conhecer de perto o sistema educacional local. Ela acompanhou, como leitora nativa, os professores de italiano em escolas públicas de ensino fundamental e médio, contribuindo para as atividades dedicadas ao estudo da língua italiana. Também participou de atividades na Universidade de Criciúma e organizou cursos básicos de italiano para diferentes grupos de adultos.
Sua experiência também envolveu os próprios professores de italiano, com os quais se colocou à disposição para praticar conversação. “Eram todas pessoas desejosas de falar e aprender a língua. Foram semanas muito intensas”, contou.
A viagem também foi marcada pela acolhida recebida das comunidades locais. Hospedada por alguns voluntários, Tacchetto pôde visitar cidades, pequenos municípios, museus e lugares ligados à história da imigração italiana.
Entre as experiências mais significativas esteve a visita ao Museu ao Ar Livre da Imigração de Orleans, onde também teve acesso, pelo menos em parte, ao arquivo histórico, entrando em contato com documentos, cartas, passaportes e autorizações de residência. Materiais que lhe permitiram compreender de maneira ainda mais concreta o que representou a emigração em massa da população de Zoldo para o Brasil. Uma história que, segundo Tacchetto, continua presente nas comunidades brasileiras, mas que na Itália corre o risco de ser esquecida.
“Nós esquecemos que fomos extremamente pobres, desejosos de uma vida melhor a ponto de partir para nunca mais voltar, diante de uma incerteza absoluta, para depois encontrar uma floresta, muitas vezes enganados pelas promessas da propaganda”, contou. Durante a viagem, porém, ela encontrou nas comunidades descendentes dos emigrantes um sentimento de orgulho e pertencimento que, em sua opinião, parece ter diminuído na Itália.
A viagem também permitiu que ela observasse outro aspecto da relação entre os dois lados do oceano. A lembrança da Itália preservada pelas comunidades de origem italiana está muitas vezes ligada à imagem do país que existia no início do século XX.
“A Itália que eles lembram é aquela do início do século XX. Já se passou mais de um século, hoje nosso país mudou, os estilos de vida são diferentes”, destacou Tacchetto.
Por isso, segundo a professora, a relação entre as comunidades não pode se limitar à memória do passado. É preciso evoluir por meio de novos contatos, encontros e de um intercâmbio cultural capaz de dialogar também com o presente.
As redes sociais já tornaram o mundo imediatamente acessível aos jovens, mas, segundo Tacchetto, elas não podem substituir a experiência direta. “Os jovens, estando nas redes sociais, têm o mundo ao alcance das mãos, mas precisam superar o medo da realidade física, indo a campo, entrando em contato, sem deixar de acompanhar os novos tempos.” A viagem ao Brasil acabou se transformando não apenas em um percurso pessoal em busca das próprias raízes, mas também em um ponto de partida para imaginar novas formas de colaboração entre a Val di Zoldo e as comunidades brasileiras nascidas da emigração italiana.
Durante o encontro em Pralongo, na Casa comunale Italo De Cian, também foram apresentadas as duas associações irmãs e o percurso da geminação, juntamente com os depoimentos dos convidados brasileiros que estavam no vale para uma breve estadia. Um momento dedicado à língua italiana, à Itália contemporânea e, sobretudo, às histórias dos descendentes dos emigrantes de Zoldo, que contribuíram para manter vivo, a milhares de quilômetros de distância, um vínculo criado há mais de um século.
A noite terminou com um lanche e um momento de confraternização, transformando o encontro em uma oportunidade concreta de diálogo entre pessoas, gerações e comunidades unidas por uma história em comum.

