Em Ischia, o vapor sai das pedras diante do mar. A cena parece quase irreal ao amanhecer: piscinas naturais fumegando entre rochas vulcânicas, jardins mediterrâneos silenciosos, barcos balançando lentamente no Golfo de Nápoles e pessoas mergulhadas em águas quentes enquanto o horizonte ainda acorda.
Poucos lugares na Itália têm uma relação tão profunda com as águas termais quanto essa ilha vulcânica diante da costa napolitana.
Para muitos brasileiros, Capri é o nome mais conhecido da região. Mas, entre os italianos, Ischia sempre carregou outra fama: a da cura, do bem-estar e do tempo lento. Enquanto Capri virou símbolo de glamour internacional, Ischia construiu sua identidade em torno das águas minerais, da natureza e do turismo termal.
Tudo começa na origem vulcânica da ilha. Ischia nasceu da atividade subterrânea que moldou grande parte da Campânia. Sob o solo, ainda hoje, existe uma intensa atividade geotérmica responsável pelas dezenas de fontes termais espalhadas pelo território. Algumas águas emergem a temperaturas superiores a 70 graus.
Os gregos já conheciam essas propriedades séculos antes de Cristo, quando fundaram os primeiros assentamentos na ilha. Depois vieram os romanos, que transformaram Ischia em um lugar de descanso e tratamentos ligados ao corpo e à saúde. Mas foi sobretudo entre o fim do século XIX e o pós-guerra que a ilha viveu sua grande transformação termal.
Hotéis começaram a surgir ao redor das fontes naturais. Médicos passaram a estudar as propriedades terapêuticas das águas vulcânicas. Aos poucos, Ischia se consolidou como um dos principais destinos termais da Europa.
Durante décadas, famílias italianas viajavam para a ilha para “fazer as águas”, tradição muito comum no país. Algumas pessoas permaneciam semanas inteiras em tratamentos de lama vulcânica, banhos minerais e terapias respiratórias.
Até hoje, muitos italianos associam Ischia não apenas às férias, mas à ideia de regeneração física.
A ilha possui dezenas de tipos diferentes de águas minerais, ricas em enxofre, bicarbonato, sódio, cálcio e outros elementos usados em tratamentos terapêuticos. A famosa lama termal de Ischia continua sendo utilizada em clínicas e hotéis especializados em problemas articulares, dermatológicos e respiratórios.
Mas Ischia nunca foi apenas medicina. Existe algo profundamente sensorial na ilha. O cheiro do enxofre misturado ao sal do Mediterrâneo. Os limoeiros crescendo entre paredes antigas. O silêncio das pequenas ruas de pescadores. O ritmo desacelerado das tardes diante do mar.
Em muitas áreas, as águas termais se misturam diretamente ao oceano.
Na baía de Sorgeto, por exemplo, piscinas naturais de água quente surgem entre pedras vulcânicas diante do mar aberto. É possível entrar no Mediterrâneo e, poucos metros depois, sentir a temperatura mudar completamente graças às correntes termais subterrâneas.
Casamicciola Terme, Lacco Ameno e Forio se tornaram os grandes centros históricos do turismo termal da ilha. Cada região desenvolveu hotéis, parques termais e jardins integrados à paisagem vulcânica. Entre os mais famosos estão os complexos termais ao ar livre, verdadeiros jardins mediterrâneos com dezenas de piscinas minerais cercadas por palmeiras, buganvílias e vistas para o mar.
Com o tempo, Ischia também se reinventou. O turismo termal tradicional passou a conviver com wellness, gastronomia, sustentabilidade e turismo de luxo discreto. Diferente de destinos mais exibicionistas do Mediterrâneo, a ilha preservou uma atmosfera mais íntima e contemplativa.
Ainda hoje, muitos visitantes chegam a Ischia buscando algo que vai além das férias convencionais. Buscam silêncio. Buscam pausa. Buscam aquela antiga sensação mediterrânea de que corpo e natureza podem voltar a encontrar equilíbrio através da água, do calor e do tempo lento.
E talvez seja justamente isso que faz de Ischia um lugar tão diferente do restante da Itália. Não apenas uma ilha no mar Tirreno, mas um território onde a terra continua viva sob os pés e onde o bem-estar parece nascer diretamente das profundezas do vulcão.
Ischia (episódio 3): a ilha das águas quentes onde o Mediterrâneo desacelera

