George Clooney encontrou em Veneza um palco à altura de un rei, mas preferiu deixar coroa e cetro de lado. Homenageado com o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira, o ator americano transformou sua noite no festival em uma mistura de humor, emoção e reflexões sobre cinema, política e o mundo em que vivemos.

Desde o tapete vermelho, Clooney mostrou que não pretendia assumir o papel de uma celebridade distante. Cercado por fotógrafos e admiradores, aproximou-se do público, cumprimentou o maior número possível de pessoas e repetiu uma de suas brincadeiras mais conhecidas: pegou uma câmera e, por alguns instantes, inverteu os papéis, fotografando os próprios fotógrafos que gritavam seu nome.

A brincadeira combinava perfeitamente com o tom da cerimônia de abertura da 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, apresentada por Greta Scarano e Nicolas Maupas. A noite conseguiu ser solene e divertida ao mesmo tempo, muito graças ao protagonista, que não resistiu a fazer caretas durante os momentos mais formais em que era homenageado.

Clooney recebeu o prêmio das mãos do festival depois de uma carreira de cerca de 45 anos. Na apresentação, a atriz Laura Dern brincou dizendo que aquele não seria exatamente um prêmio pelo conjunto da carreira, mas por uma “meia carreira”, porque ele ainda teria muitos filmes e muita arte para oferecer.

Ao subir ao palco, Clooney começou justamente pelo humor. “Quando dizem que você vai receber um prêmio pelo conjunto da carreira, duas coisas passam pela sua cabeça. A primeira é: que honra incrível. A segunda: ‘Será que eles sabem de alguma coisa que eu não sei? Falaram com meus médicos?’”

Aos 65 anos, o ator aproveitou a ocasião para olhar para trás sem transformar a retrospectiva em um discurso de autopromoção. Segundo ele, sua carreira começou quase por acaso. Durante muito tempo, disse, estava simplesmente tentando pagar o aluguel e evitar voltar ao Kentucky para trabalhar com tabaco.

Para Clooney, olhando para os anos que passaram, sua trajetória parece menos uma carreira cuidadosamente planejada do que uma sequência de coincidências felizes. Alguém lhe deu o primeiro emprego, outra pessoa o segundo e, em determinado momento, um diretor enxergou nele algo que o próprio ator ainda não havia percebido. A conclusão foi uma das ideias centrais de seu discurso: ninguém chega a lugar algum sozinho.

Foi a partir daí que a homenagem ganhou um tom mais político. Clooney falou sobre as coisas que, apesar das diferenças entre países e idiomas, aproximam as pessoas. “Ninguém ri em uma língua diferente. Ninguém chora em uma língua diferente. Os pais se preocupam da mesma maneira. As crianças sonham da mesma maneira. O amor é surpreendentemente parecido em todas as línguas.”

Para ele, essa experiência humana comum torna difícil acreditar que as pessoas sejam tão diferentes quanto frequentemente lhes dizem. O ator também falou sobre o momento político atual e sobre o papel da imprensa. Sem esconder suas posições, afirmou que os primeiros profissionais que regimes autoritários tentam silenciar não são necessariamente os políticos, mas os jornalistas que fazem perguntas.

“As histórias são sempre perigosas para quem alimenta o medo”, afirmou. O cinema, reconheceu, não consegue interromper guerras, reduzir a inflação ou consertar eleições. Mas pode lembrar que uma pessoa desconhecida para nós pode ser, para outra pessoa, o protagonista de uma história.

A preocupação com a política americana já havia aparecido na conversa de Clooney com jornalistas antes da cerimônia. Ao comentar a administração Donald Trump, o ator recorreu a uma palavra pouco comum, kakistocracy, termo usado para descrever um governo comandado pelas pessoas consideradas menos qualificadas. Clooney também criticou o comportamento do secretário de Defesa americano nas redes sociais e questionou o que chamou de perda do senso de decência. Apesar das críticas, rejeitou novamente a ideia de que esteja preparando uma candidatura à Presidência dos Estados Unidos.

Longe da política, porém, a parte mais pessoal de sua participação em Veneza esteve relacionada à família. Aos 65 anos, Clooney admitiu que a passagem do tempo produz certa melancolia. Até mesmo diante do espelho, quando percebe que já foi mais bonito. Mas suas prioridades mudaram. Hoje, sua mulher e seus dois filhos ocupam um espaço central em suas decisões profissionais. São, segundo ele, as únicas pessoas no mundo convencidas de que ele foi um bom Batman.

É também por causa deles que Clooney decidiu deixar de dirigir filmes. A razão é prática: uma produção pode exigir quase um ano longe de casa, enquanto um trabalho como ator normalmente ocupa no máximo alguns meses. “Não trabalho mais como diretor porque, agora que meus filhos cresceram, não quero mais ficar longe por tanto tempo.”

A ideia é continuar atuando e, de preferência, trabalhando com os amigos que fizeram parte de sua trajetória, como Brad Pitt e Matt Damon. “Eu os adoro”, afirmou, lembrando que os três procuram voltar a filmar juntos sempre que encontram uma oportunidade.

Pitt, aliás, participou da homenagem à distância, enviando uma mensagem carinhosa ao amigo. A comparação escolhida foi inusitada: Clooney seria como um Gouda, o queijo que melhora com o envelhecimento. A plateia pareceu concordar. Ao final do discurso, levantou-se para uma longa ovação.

Clooney, porém, não ficou muito tempo no centro das atenções. Depois da cerimônia, saiu rapidamente, quase como o personagem que interpretou no passado. E deixou claro que a celebração teria uma regra bastante simples. “Vou comemorar de uma única maneira: bebendo.”
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