Em Veneza, projeto de mais 77 casas para turistas reacende debate sobre excesso

Veneza enfrenta há anos uma contradição difícil de resolver: a cidade vive do turismo, mas o volume de visitantes também ameaça transformar seu próprio patrimônio e o equilíbrio de seus ecossistemas. É nesse contexto que um novo projeto imobiliário em Pellestrina, uma das áreas mais preservadas da lagoa veneziana, voltou a provocar forte reação de moradores e ambientalistas.

A proposta prevê a construção de 77 unidades destinadas ao turismo em Ca’ Roman, na extremidade sul da ilha. O local é particularmente sensível: entre a lagoa e o mar Adriático, abriga uma reserva natural considerada uma das últimas áreas de dunas relativamente intactas do Alto Adriático. Uma petição contra o projeto já reuniu mais de 42 mil assinaturas.

Pellestrina está a poucos quilômetros do centro de Veneza, mas parece pertencer a outro mundo. A ilha é uma faixa estreita de terra protegida pelos chamados Murazzi, enormes estruturas de pedra construídas para defender a lagoa do mar. Em Ca’ Roman, o acesso é limitado e parte do percurso precisa ser feita a pé. Esse isolamento ajudou a preservar um ambiente que abriga centenas de espécies de aves e uma rica fauna de insetos.

É justamente essa característica que está no centro da controvérsia. O projeto nasceu da recuperação de uma antiga colônia marítima abandonada, mas prevê sua transformação em um complexo turístico. Ao longo dos anos, a proposta passou por diversas modificações e disputas administrativas e judiciais. O número inicialmente previsto, de 84 unidades, acabou reduzido para 77.

A questão ganhou ainda mais peso porque Veneza já está no centro de uma discussão internacional sobre overtourism. A cidade recebe milhões de visitantes por ano e vem adotando medidas para tentar controlar os efeitos da pressão turística sobre seu centro histórico, desde a cobrança de acesso em determinados períodos até restrições a grandes grupos e outras iniciativas de gestão do fluxo.

O problema, porém, vai muito além da quantidade de pessoas caminhando pela Praça de São Marcos. O turismo exerce pressão sobre moradia, transporte, serviços públicos, resíduos e sobre os próprios espaços naturais da lagoa. A transformação de áreas preservadas em estruturas destinadas à hospedagem coloca uma pergunta incômoda: até onde pode avançar a indústria turística sem destruir justamente aquilo que torna Veneza especial?

No caso de Ca’ Roman, os críticos também questionam como funcionaria a infraestrutura de um novo núcleo turístico em uma área isolada. O projeto prevê soluções específicas para abastecimento de água e coleta de resíduos, enquanto os responsáveis afirmam que a área natural vizinha será integralmente protegida.

A polêmica, portanto, não é apenas sobre 77 casas. Ela resume um dos grandes desafios de Veneza para os próximos anos: encontrar um ponto de equilíbrio entre uma economia profundamente dependente dos visitantes e a necessidade de preservar um território excepcionalmente frágil.

Em uma cidade onde até o excesso de turistas já se tornou parte do problema, a discussão sobre Pellestrina coloca em jogo algo ainda mais delicado: se ainda existem lugares onde o turismo deve chegar, ou lugares que precisam justamente permanecer fora dele.
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