Poucas expressões culturais conseguem representar uma cidade de forma tão profunda quanto a canção napolitana representa Nápoles. Mais do que um gênero musical, ela se tornou ao longo de mais de um século uma espécie de trilha sonora da identidade do sul da Itália, atravessando gerações e fronteiras com clássicos que continuam conhecidos em todo o mundo. Agora, esse patrimônio cultural pode dar um novo passo em sua trajetória internacional.
A Arena de Verona recebeu ontem, 5 de junho o lançamento oficial da candidatura da canção napolitana clássica ao reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco. “Foi un belo evento que falou ao mundo sobre a Itália e sua beleza. Foi a noite de televisão mais assistida e estima-se que, após as cerimônias olímpicas, foi assistido por mais de 60 milhões de telespectadores internacionais, incluindo muitos de nossos compatriotas que poderão retornar à Itália como turistas de suas raízes”, disse á imprensa italiana o Ministro do Turismo, Gianmarco Mazzi, comemorando o sucesso do evento Campioni del Mondo – Italia Loves Unesco.
A iniciativa italiana junto á agência Onu celebra uma das maiores riquezas culturais italianas em um momento em que o país reforça sua posição entre as nações com o maior número de reconhecimentos da organização internacional. Nos últimos anos, a Itália ampliou sua presença na lista da Unesco com elementos que vão da ópera lírica à tradição gastronômica, fortalecendo a valorização de manifestações culturais consideradas símbolos da identidade nacional.
A escolha da canção napolitana não é casual. Nascida entre os séculos XIX e XX, ela ajudou a projetar Nápoles para o mundo através de melodias que continuam presentes no imaginário coletivo, como ‘O Sole Mio, Te Voglio Bene Assaje, Era de Maggio e Dicitencello Vuje. Muitas dessas composições foram reinterpretadas por artistas internacionais e se transformaram em verdadeiros embaixadores da cultura italiana.
O espetáculo em Verona reuniu música, patrimônio histórico e tradição popular. A programação contou com apresentações de algumas das mais conhecidas canções napolitanas ao lado de trechos do repertório operístico italiano, reforçando o diálogo entre duas das expressões artísticas mais emblemáticas do país.
Entre os artistas que se alternaram no palco Plácido Domingo, Serena Autieri, Gigi D’Alessio, Sal Da Vinci, Serena Rossi, Massimo Ranieri e Gianni Morandi. A cantora norte-americana Patti Smith também partecipou da noite, demonstrando o alcance internacional que a música italiana continua exercendo.
Paralelamente aos espetáculos, foi realizada uma grande celebração popular com gastronomia típica italiana e atividades culturais abertas ao público.
O evento também teve forte dimensão diplomática. Cerca de cem representantes ligados à Unesco e provenientes de diversos países acompanharam a programação, numa oportunidade para apresentar ao mundo a relevância histórica e cultural da tradição musical napolitana.
Para os brasileiros, a candidatura desperta especial interesse. Milhões de descendentes de italianos no Brasil têm raízes no sul da Itália e mantêm uma ligação afetiva com músicas que atravessaram o Atlântico junto com os fluxos migratórios do final do século XIX e início do século XX. Muitas dessas canções chegaram aos portos brasileiros antes mesmo da popularização do rádio e continuam presentes em festas, eventos culturais e repertórios familiares.
Mais do que uma homenagem a Nápoles, a iniciativa busca reconhecer uma tradição que ajudou a contar a história da Itália moderna. Se a candidatura avançar, a canção napolitana poderá se juntar a outros símbolos culturais italianos já protegidos pela Unesco, reforçando seu papel como uma das expressões musicais mais influentes do Mediterrâneo.
Em maxi-evento, Itália lança candidatura da canção napolitana ao Patrimônio da Unesco

