ter. fev 3rd, 2026

Descoberta histórica na Itália: emerge um navio romano com a “salsa dos imperadores”



Descoberta histórica na Itália: emerge um navio romano com a “salsa dos imperadores”

Por séculos, o mar Jônico guardou em silêncio uma história de comércio, sabores e poder. Agora, esse passado começa a emergir novamente ao largo de Gallipoli, no sul da Itália, com a descoberta de um navio romano do século IV d.C. carregado de anforas cheias de garum, a célebre e controversa “salsa dos imperadores”.

Um achado considerado sem precedentes pelos arqueólogos, capaz de lançar nova luz sobre as rotas comerciais e os hábitos alimentares do mundo romano tardio.

A embarcação foi localizada a cerca de seis meses, durante uma operação de rotina da Guarda de Finanças italiana. Sensores de bordo detectaram anomalias no fundo do mar e, após uma inspeção subaquática, surgiram os restos de um grande navio mercante, deitado no leito marinho com parte de sua carga ainda intacta. A notícia, no entanto, só veio a público agora.

O silêncio foi estratégico: proteger o sítio arqueológico de saques e garantir a preservação de um patrimônio considerado extremamente delicado e valioso.

O detalhe mais fascinante está no conteúdo das anforas. O navio transportava garum, um molho à base de peixe fermentado, produzido sobretudo com vísceras de anchovas e outros peixes pequenos. De aroma intenso e sabor marcante, o garum era muito mais do que um condimento. Na Roma antiga, ele simbolizava status, sofisticação e poder econômico. Consumido pelas elites e comercializado a preços elevados, era um produto de prestígio que circulava por todo o Mediterrâneo, das costas da África até as mesas da península Itálica.

Os arqueólogos acreditam que o navio tenha partido do norte da África, uma das grandes áreas produtoras de garum na Antiguidade, e seguia em direção às costas italianas quando naufragou no mar Jônico. A presença de anforas bem conservadas sugere que o afundamento ocorreu de forma relativamente rápida, permitindo que o carregamento permanecesse protegido por séculos sob camadas de sedimentos.

O investimento previsto para as operações de estudo, escavação e conservação gira em torno de 780 mil euros. A próxima etapa será uma documentação sistemática do sítio, utilizando tecnologias modernas de arqueologia subaquática. Só depois virão o delicado processo de escavação e o eventual resgate das anforas e dos restos da embarcação, que exigirá cuidados minuciosos para evitar danos irreversíveis.

Para além do valor arqueológico, a descoberta tem também uma força simbólica poderosa. O garum é frequentemente apontado como o antepassado distante da colatura di alici, o molho tradicional ainda produzido em algumas regiões do sul da Itália, como a Campânia.

Um fio invisível que conecta práticas gastronômicas atuais a costumes de quase dois mil anos atrás, reforçando a ideia de que a cozinha italiana, tão admirada no mundo inteiro, é resultado de uma longa sedimentação histórica.

Para o público brasileiro, acostumado a olhar a Itália como terra de arte, cidades históricas e imigração, o achado de Gallipoli revela uma outra dimensão do país: a de ponte milenar entre povos, sabores e rotas comerciais. Um lembrete de que, muito antes dos navios que cruzaram o Atlântico rumo às Américas, o Mediterrâneo já era um grande palco de circulação global.

No fundo do mar, entre anforas e madeiras antigas, repousa não apenas um navio, mas um fragmento de civilização. E, ao ser trazido novamente à luz, ele nos convida a imaginar marinheiros, mercadores e cozinheiros que, há séculos, acreditavam que um simples molho de peixe podia valer seu peso em ouro.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *