O cheiro de enxofre aparece antes mesmo do vapor. Em algumas áreas da Campânia, no sul da Itália, a terra literalmente fuma. Entre crateras vulcânicas, lagos subterrâneos e colinas que escondem atividade geotérmica há milhares de anos, a água quente brota naturalmente do solo como se o Mediterrâneo respirasse por baixo das pedras.
É nesse cenário quase mítico que nasceu uma das mais antigas culturas termais da Europa.
Muito antes de spas modernos, piscinas de luxo e turismo wellness, os gregos e depois os romanos já transformavam essas águas em espaços de cura, convivência, política e prazer. A Campânia se tornou, ao longo dos séculos, uma espécie de capital mediterrânea das termas. E ainda hoje concentra alguns dos centros termais mais importantes da Itália.
Para entender por quê, é preciso olhar para a geografia da região. A Campânia repousa sobre uma das áreas vulcânicas mais ativas da Europa. O Vesúvio domina o horizonte de Nápoles, enquanto os Campos Flégreos, gigantesco sistema vulcânico entre Pozzuoli e Bacoli, escondem crateras, fumarolas e fontes subterrâneas de água mineral aquecida naturalmente.
Os antigos acreditavam que aquele território era uma porta para o submundo. Não por acaso, os romanos chamavam parte da região de Campi Flegrei, “campos ardentes”. O nome permanece até hoje.
Foi justamente essa atividade vulcânica que criou uma enorme variedade de águas minerais, ricas em enxofre, ferro, bicarbonato e outros elementos usados historicamente em tratamentos terapêuticos. Algumas águas são indicadas para problemas respiratórios. Outras para pele, articulações ou circulação sanguínea.
Mas reduzir as termas italianas apenas à saúde seria simplificar demais uma tradição milenar.
Na Roma Antiga, frequentar termas era parte da vida cotidiana. Não eram apenas locais de banho. Eram centros sociais, culturais e políticos. Ali se discutiam negócios, alianças, filosofia e até estratégias militares. Imperadores, senadores, comerciantes e soldados dividiam os mesmos espaços de vapor e piscinas aquecidas.
A Campânia virou rapidamente um dos destinos favoritos da elite romana. O clima ameno, o mar do Golfo de Nápoles e a abundância de águas termais criaram uma combinação quase irresistível para os aristocratas do Império.
Muitas das termas atuais nasceram literalmente sobre estruturas antigas.
Em Pozzuoli e Baia ainda sobrevivem ruínas impressionantes do sistema termal romano. Em Ischia, ilha vulcânica conhecida pelas águas quentes diante do mar, os gregos já utilizavam fontes naturais séculos antes de Cristo. Em Castellammare di Stabia, aos pés do Vesúvio, as águas minerais transformaram a cidade em um dos grandes destinos termais italianos entre os séculos XIX e XX.
Existem também centros históricos menos conhecidos do público brasileiro, como Telese Terme, no interior da Campânia, famosa pelas águas sulfurosas, ou Agnano, antiga área termal nos arredores de Nápoles ligada aos Campos Flégreos.
Ao longo do século XX, o turismo termal italiano viveu momentos de enorme popularidade. Famílias inteiras viajavam durante semanas para “fazer as águas”, tradição ainda muito presente entre italianos mais velhos. Em muitos casos, os tratamentos eram recomendados até pelo próprio sistema público de saúde.
Hoje o cenário mudou, mas não desapareceu. As antigas termas passaram por uma transformação estética e turística. Muitos centros combinaram medicina termal com wellness, gastronomia, hotéis de charme e experiências ligadas ao bem-estar.
O resultado é um turismo mais lento, contemplativo e sensorial, muito distante da lógica acelerada das grandes cidades.
Na Campânia, as termas continuam sendo uma forma de relação com o tempo. Um ritual mediterrâneo feito de silêncio, pedra vulcânica, água quente e paisagens diante do mar.
E talvez seja justamente isso que torna essas águas tão fascinantes há mais de dois mil anos.
Campânia, terra das águas quentes (episódio 1): onde nasceram as termas da Itália

