A Biblioteca Capitolare, no coração da cidade de Verona, na região do Vêneto, é considerada a biblioteca mais antiga do mundo ainda em atividade. Uma história de aproximadamente 1.500 anos, atravessada por guerras, pestes, pandemias, revoluções, enchentes e bombardeios, mas que não interrompeu sua função de preservar e transmitir o conhecimento.
Suas origens remontam ao século V, quando, dentro do complexo arquitetônico da Catedral de Verona, começou a tomar forma um centro dedicado à cultura e à formação dos sacerdotes. Ali funcionavam a Escola destinada à formação do clero e o Scriptorium, onde os manuscritos eram copiados e produzidos.
Foi justamente a acumulação dos livros produzidos no Scriptorium que, progressivamente, deu origem à Biblioteca Capitolare.
A prova mais antiga e segura da continuidade dessa atividade remonta a 1º de agosto de 517 d.C. Trata-se do chamado Código de Ursicino, um manuscrito assinado e datado pelo copista Ursicino, que permite estabelecer, pelo menos a partir daquela data, a existência de um Scriptorium ativo em Verona e de uma tradição dedicada à produção e preservação de livros que continuaria pelos séculos seguintes.
Mas a história da Capitolare pode ser ainda mais antiga. Entre seus tesouros estão textos anteriores ao Código de Ursicino, entre eles uma das mais antigas cópias do De Civitate Dei, de Santo Agostinho, e as Institutiones de Gaio, obra fundamental para o conhecimento do antigo direito romano.
É justamente esse patrimônio anterior à primeira documentação que comprova a continuidade da biblioteca que torna sua história ainda mais fascinante. Não se trata apenas de uma biblioteca que atravessou quinze séculos, mas de um lugar onde sobreviveram testemunhos da cultura europeia de épocas ainda mais remotas.
Ao longo dos séculos, a Biblioteca Capitolare de Verona também se tornou um importante local de estudo frequentado por alguns dos grandes nomes da cultura italiana.
Entre eles esteve Dante Alighieri, que em Verona pronunciou a famosa oração em latim Quaestio de aqua et terra. Francesco Petrarca também frequentou a biblioteca e foi justamente ali que encontrou as cartas de Cícero a Ático, Quinto e Bruto, uma descoberta que teria enorme importância para a história da filologia.
A Capitolare, portanto, nunca foi apenas um lugar destinado à conservação de livros e manuscritos. Ao longo dos séculos, tornou-se um verdadeiro centro de pesquisa, estudo e intercâmbio intelectual, atraindo estudiosos e escritores interessados em consultar um patrimônio bibliográfico de valor excepcional.
A história da Biblioteca Capitolare também é marcada por episódios que parecem ter saído de um romance histórico.
Em um dos momentos mais delicados de sua longa existência, o patrimônio bibliográfico foi escondido para ser protegido. Segundo a tradição, o responsável pela preservação dos livros foi o bibliotecário Agostino Rezzani, que os escondeu em um local secreto. Rezzani, porém, morreu sem revelar a ninguém onde o patrimônio havia sido colocado.
Durante anos, os manuscritos permaneceram escondidos. Quando foram finalmente encontrados, no século seguinte, a descoberta provocou grande entusiasmo entre estudiosos e intelectuais europeus, que voltaram a ter acesso a um patrimônio bibliográfico de enorme valor.
Mas aquela não seria a última vez que a Capitolare precisaria lutar para sobreviver.
Um dos momentos mais dramáticos aconteceu em 1882, quando o rio Adige transbordou e a água atingiu a Biblioteca Capitolare. A lama provocou graves danos ao patrimônio documental e mais de 11 mil pergaminhos foram comprometidos.
O trabalho de recuperação e restauração dos documentos se tornou então uma verdadeira emergência. A conservação desse patrimônio exigiria anos de trabalho e envolveria também Giuseppe Turrini, que posteriormente teria um papel fundamental na história da biblioteca.
Durante a Segunda Guerra Mundial surgiu um perigo ainda maior. Em 4 de janeiro de 1945, um bombardeio aliado atingiu a Biblioteca Capitolare e destruiu o salão principal.
A responsável por salvar os manuscritos e incunábulos mais valiosos foi justamente Giuseppe Turrini, então responsável pela Capitolare. Diante da intensificação dos bombardeios, ele decidiu proteger os volumes mais importantes, transferindo-os para fora da cidade, para a casa paroquial de Erbezzo, nas montanhas de Lessini.
Os livros que permaneceram na biblioteca foram atingidos pelos escombros.
A recuperação foi longa e complexa, também devido ao risco de novos bombardeios, às condições do edifício danificado e à neve que, depois de derreter e voltar a congelar, transformou alguns volumes em verdadeiros blocos de gelo. Apesar de tudo, uma parte significativa dos livros conseguiu ser recuperada.
A reconstrução da Biblioteca Capitolare também está ligada ao nome de Giuseppe Turrini. Depois da destruição de 1945, começou o projeto para devolver à biblioteca sua sede e reconstruir o grande salão monumental.
A primeira pedra da reconstrução foi colocada em 4 de janeiro de 1946, exatamente um ano depois do bombardeio. As obras avançaram rapidamente e o novo salão monumental ficou pronto em 33 meses.
Em 28 de setembro de 1948, a Biblioteca Capitolare finalmente pôde reabrir suas portas, voltando a funcionar como espaço de estudo e conservação do patrimônio bibliográfico.
Hoje, a Biblioteca Capitolare conserva um patrimônio extraordinário. A coleção reúne mais de 70 mil monografias e um importante acervo antigo formado por 1.280 manuscritos, 268 incunábulos, cerca de 2.500 livros do século XVI e 2.800 do século XVII. A esse patrimônio soma-se o grande acervo documental, com cerca de 11 mil pergaminhos e numerosos documentos relacionados ao Capítulo de Verona e a importantes famílias veronesas.
Entre os tesouros mais conhecidos da biblioteca está também o Indovinello Veronese, conservado em um códice do século VIII e considerado o mais antigo testemunho escrito daquela que viria a se tornar a língua italiana.
O patrimônio da Capitolare atravessa, portanto, séculos completamente diferentes: da Antiguidade tardia à Idade Média, do surgimento da imprensa à época moderna, chegando às dramáticas acontecimentos do século XX.
A Biblioteca Capitolare de Verona é muito mais do que um lugar onde são conservados livros antigos. É um testemunho vivo da continuidade da cultura europeia.
Seus manuscritos atravessaram pestes, guerras, revoluções, enchentes e bombardeios. Alguns foram escondidos para serem salvos, outros recuperados dos escombros e outros restaurados depois de terem sido danificados pela água e pela lama.
E, depois de aproximadamente 1.500 anos, a Biblioteca Capitolare continua em atividade. Sua história permanece registrada nos códices, pergaminhos e manuscritos que conseguiram sobreviver ao tempo.
Um patrimônio que não pertence apenas a Verona, mas que conta uma parte fundamental da história cultural da Itália e da Europa.

