Muito antes da Riviera Francesa, de Capri virar símbolo do verão europeu ou dos resorts de luxo do Mediterrâneo, existia Baia.
Hoje silenciosa, arqueológica e quase melancólica, a pequena área entre Pozzuoli e Bacoli, nos arredores de Nápoles, foi um dos lugares mais exclusivos do Império Romano. Uma espécie de mistura entre centro termal, balneário aristocrático e refúgio político da elite de Roma.
Ali, diante do mar da Campânia, imperadores, senadores, generais e filósofos mergulhavam em piscinas aquecidas naturalmente pelo calor vulcânico da terra. E faziam isso em meio a mármores, jardins, vinhos, festas e vistas que ainda hoje parecem cinematográficas.
A região pertence aos Campos Flégreos, uma das áreas vulcânicas mais impressionantes da Europa. O próprio nome vem do grego phlegraios, “ardente”. Em muitos pontos, o solo continua liberando vapor e gases naturais até hoje. Lagos vulcânicos, crateras adormecidas e águas sulfurosas transformaram o território em um laboratório termal natural desde a Antiguidade.
Os romanos perceberam rapidamente o potencial daquele lugar.
Enquanto as grandes termas públicas de Roma tinham uma função urbana e social, Baia representava algo diferente: prazer, descanso e poder. Era o lugar para onde a aristocracia fugia em busca de bem-estar e discrição. Ou, muitas vezes, exatamente do contrário.
Autores antigos descreviam Baia como um território de excessos. O poeta Horácio falava da região como o lugar mais belo do mundo romano. Já Sêneca criticava o luxo exagerado das villas construídas à beira-mar. Muitos imperadores passaram temporadas ali, entre eles Nero, Adriano e Júlio César.
As termas eram parte central dessa vida sofisticada. A água quente brotava naturalmente do subsolo vulcânico e alimentava piscinas, banhos de vapor e ambientes terapêuticos. Alguns espaços funcionavam quase como centros de saúde da época. Outros eram verdadeiros palácios dedicados ao ócio romano.
Ainda hoje é possível caminhar entre as ruínas monumentais das antigas Termas de Baia. Cúpulas gigantescas, corredores subterrâneos e estruturas impressionantes sobreviveram ao tempo, criando uma das paisagens arqueológicas mais fascinantes da Itália.
Mas existe algo ainda mais surpreendente: parte da antiga cidade romana está submersa no mar.
Por causa do fenômeno vulcânico conhecido como “bradisismo” – típico dos Campos Flégreos – o solo da região sobe e desce lentamente há séculos. Isso fez com que antigas villas, mosaicos e estruturas romanas acabassem engolidos pelas águas do Mediterrâneo.
Hoje, arqueólogos e mergulhadores exploram um verdadeiro parque arqueológico submarino diante da costa de Baia.
A poucos quilômetros dali, Pozzuoli também cresceu em torno das águas termais e da atividade vulcânica. A cidade conserva até hoje marcas dessa relação intensa entre natureza e civilização. O antigo Macellum romano, conhecido popularmente como Templo de Serápis, virou símbolo das transformações geológicas da região. As colunas corroídas pelo mar mostram visualmente como o nível do solo mudou ao longo dos séculos.
Existe ainda uma dimensão quase mística nos Campos Flégreos.
Os gregos e romanos acreditavam que ali ficava uma das portas para o mundo subterrâneo. O lago Averno era associado à entrada do reino dos mortos. Cavernas vulcânicas, vapores saindo da terra e águas ferventes ajudavam a alimentar mitos e lendas sobre o além.
Séculos depois da queda do Império Romano, o fascínio continua.
Hoje a região tenta redescobrir sua vocação turística entre arqueologia, vinho, gastronomia e turismo termal. Menos glamourosa do que Capri ou Amalfi, mas talvez ainda mais autêntica, Baia e os Campos Flégreos seguem parecendo um lugar onde a terra nunca parou completamente de respirar.
Baia e Pozzuoli: as cidades termais onde a elite da antiga Roma viveu entre luxo e excessos

