Em Feltre, entre as montanhas do Vêneto e o silêncio de uma província que ainda guarda a memória da emigração italiana, existe uma história que parece fechar um ciclo aberto há mais de um século. É a história de Fernanda Provin, jovem empresária brasileira com raízes italianas profundíssimas, que decidiu voltar para a terra de onde sua família partiu no fim do século XIX em busca de um futuro melhor.
O trisavô dela deixou o porto de Gênova rumo ao Brasil por volta de 1880, como milhares de italianos obrigados a atravessar o oceano em busca de esperança e sobrevivência. No Brasil, a família Provin criou raízes. O bisavô, Joao Provin, trabalhou como agricultor e ajudou até mesmo na fundação da cidade de Maximiliano de Almeida, no Rio Grande do Sul. Até hoje, a praça principal da cidade leva o seu nome, quase como um símbolo de gratidão daquela comunidade por uma família que chegou da Itália carregando pouco além de uma mala e muita determinação.
Fernanda, porém, escolheu o caminho inverso. Decidiu voltar às origens. Cruzar novamente o oceano, mas na direção oposta. E hoje vive em Feltre, onde há poucas semanas inaugurou o “Unica Beauty Studio”, na piazzale Silvio Guarnieri, nos espaços da antiga Manifattura.
“Esse estúdio nasce da minha paixão pela beleza natural e da convicção de que cada mulher é única”, conta Fernanda. “Meu objetivo é valorizar aquilo que torna cada pessoa especial, respeitando sua autenticidade e identidade. Acredito que se sentir bem consigo mesma pode mudar a maneira como enfrentamos a vida: com mais segurança, mais luz e mais confiança”.
A dela é uma verdadeira história de imigração ao contrário. Ao seu lado está o companheiro Bruno Bof, também descendente de imigrantes vênetos. A família Bof deixou o Vale de Seren por volta de 1885 para chegar ao Brasil, onde recebeu um pedaço de terra do governo em troca do trabalho na construção de estradas. Anos depois, Bruno também decidiu voltar para a Itália para construir aqui o próprio futuro.
Fernanda nasceu e cresceu em Maximiliano de Almeida, pequena cidade brasileira profundamente marcada pela presença italiana. Mais tarde mudou-se para Florianópolis por motivos de estudo, formando-se em Direito. Mas, dentro dela, sentia que aquele não era o seu verdadeiro caminho. Sua grande paixão era o universo da beleza natural, da dermopigmentação e da estética avançada, área na qual decidiu se especializar, aprofundando também estudos ligados à engenharia química.
O chamado da Itália, porém, nunca desapareceu. Um vínculo alimentado ao longo dos anos também graças a amizades de família surgidas entre os anos 1990 e 2000, que mantiveram vivo o elo com as origens vênetas.
“Quando cheguei a Feltre, o que mais me impressionou foi imediatamente o senso de comunidade”, explica. “Encontrei uma qualidade de vida diferente daquela que tinha no Brasil, além de oportunidades profissionais que me permitiram crescer. Em 2019 consegui obter a cidadania italiana e hoje, depois de cinco anos vivendo aqui, posso dizer que esta cidade se tornou a minha casa”.
Daquele percurso iniciado há mais de cem anos nasceu agora um novo capítulo. Não mais uma partida desesperada rumo à América do Sul, mas um retorno consciente às próprias raízes. Uma história que fala de identidade, memória e coragem. Porque, às vezes, a verdadeira sorte não é apenas partir. É também saber para onde voltar.

