Existem viagens que começam muito antes do embarque. Algumas nascem da memória, outras das tradições transmitidas entre gerações. E há aquelas que encontram no alimento uma maneira especial de conectar histórias, pessoas e culturas.
Foi justamente essa conexão que marcou a participação brasileira no Terra Madre Salone del Gusto 2026, realizado em Torino, na Itália. Um dos mais importantes encontros internacionais dedicados à cultura alimentar reuniu representantes de 120 países, transformando a cidade piemontesa em um verdadeiro mosaico de sabores, conhecimentos e identidades.
Durante o evento, o alimento deixou de ser apenas protagonista da gastronomia para assumir um papel ainda maior: contar a história dos territórios e das comunidades que preservam suas tradições.
Dois países, muitas histórias à mesa
De um lado, a Itália apresentou a extraordinária diversidade de suas regiões, reunindo produtores, ingredientes e especialidades que fazem da gastronomia italiana um patrimônio cultural reconhecido mundialmente.
Mais de 130 Presìdi Slow Food italianos participaram do encontro, representando pequenas produções tradicionais, variedades locais, raças autóctones e técnicas que resistem à padronização alimentar.
Queijos, azeites, vinhos, pães, massas, frutas, hortaliças e méis desenharam uma verdadeira viagem gastronômica pelo país. Cada produto carregava algo que não se encontra em uma simples etiqueta: a história de quem o produz e a identidade do lugar de onde vem.
Do outro lado do Atlântico, o Brasil levou uma biodiversidade igualmente fascinante.
Cacau, café, raízes, sementes, alimentos tradicionais, abelhas nativas e méis de diferentes biomas apresentaram ao público internacional um país cuja riqueza gastronômica vai muito além dos sabores que normalmente chegam ao mercado europeu.
A mandioca, ingrediente profundamente ligado à identidade alimentar brasileira, foi um dos exemplos dessa conexão entre culturas. Presente também em preparações tradicionais de outros países, como o abacha nigeriano, mostrou como um mesmo alimento pode atravessar fronteiras e adquirir significados diferentes em cada território.
O cacau brasileiro encontra suas raízes italianas
Entre os representantes brasileiros esteve Beatrix Cacau, coordenadora do Slow Food Cacau e Chocolate no Brasil, que participou de duas atividades dedicadas ao universo do cacau e às relações entre comunidades produtoras de diferentes continentes.
Uma delas foi Vidas do Cacau, encontro que apresentou a recém-criada Slow Food Cacao Coalition, iniciativa internacional que passa a integrar a rede de coalizões do movimento, ao lado das já dedicadas ao café e ao vinho.
A proposta é ampliar a maneira como enxergamos o cacau. Antes de se transformar em chocolate, ele é fruto, biodiversidade, trabalho, conhecimento e fonte de identidade para inúmeras comunidades.
Beatrix também participou da programação da Cozinha Sem Fronteiras, em uma experiência gastronômica que aproximou Brasil e Uganda por meio do cacau. Produtoras de dois continentes compartilharam conhecimentos e experiências, demonstrando que um ingrediente pode ser comum a diferentes povos, mas as histórias por trás dele são sempre únicas.
E havia um simbolismo especial naquele encontro.
Torino não é uma cidade qualquer quando o assunto é chocolate. Sua tradição chocolateira atravessa séculos e está profundamente ligada à identidade gastronômica local. Foi justamente ali que o cacau brasileiro encontrou uma das mais emblemáticas culturas europeias de transformação do chocolate.
Uma viagem de volta às origens
Para Beatrix, entretanto, a participação no Terra Madre teve também uma dimensão pessoal.
Brasileira, cidadã italiana e descendente de italianos, ela retornou à terra de seus antepassados levando consigo o resultado de um trabalho desenvolvido no Brasil em torno do cacau, da biodiversidade e da valorização dos pequenos produtores.
Uma espécie de viagem de ida e volta entre duas identidades.
Se, no passado, tantas famílias italianas atravessaram o oceano levando ao Brasil suas tradições, conhecimentos e esperanças, agora uma descendente percorreu o caminho inverso, trazendo à Itália os frutos e as histórias da terra onde construiu sua trajetória.
Mais do que uma participação profissional, um reencontro entre origens e pertencimento.
Quarenta anos de uma ideia que continua atual
A edição de 2026 também marcou os 40 anos do Slow Food, movimento fundado na Itália por Carlo Petrini e que transformou a defesa do alimento bom, limpo e justo em uma mobilização internacional.
A cerimônia de abertura contou com a presença do presidente da República Italiana, Sergio Mattarella, além de autoridades de Torino e do Piemonte e representantes de diversos países.
Quatro décadas depois, a mensagem do movimento continua especialmente relevante: proteger a biodiversidade alimentar significa preservar não apenas ingredientes, mas também agricultores, paisagens, técnicas, culturas e modos de vida.
A participação brasileira reforçou essa visão, mostrando a importância das comunidades que mantêm vivos os conhecimentos relacionados aos alimentos nativos e à diversidade dos ecossistemas do país.
Muito além do que chega ao prato
O Terra Madre 2026 deixou uma mensagem que ultrapassa a gastronomia.
Em um mundo cada vez mais globalizado, preservar as diferenças alimentares não significa construir fronteiras, mas reconhecer a riqueza que existe em cada cultura.
Brasil e Itália, países unidos por uma longa história de imigração, intercâmbio e afetividade, encontraram mais uma vez no alimento uma linguagem comum.
E talvez seja justamente essa a imagem mais bonita que fica de Torino: uma brasileira de raízes italianas apresentando o cacau de seu país na terra de seus antepassados.
Porque existem sabores que alimentam, outros que despertam lembranças e alguns que conseguem fazer algo ainda mais especial: aproximar dois países e transformar um oceano de distância em uma história compartilhada.

